Verão


É só rock ‘n roll, baby, eu sei, eu gosto. É também uma explosão, som e fúria, a faísca que culmina, do começo ao fim, aos microfones, os dedos em frenesi na guitarra, a voz cheia de desejo de sacudir o espaço sem ar, palavras ao vento, melodia aos ouvidos, gritos de mudança, o espirito libertário e revolucionário de uma geração e isso em poesia e cifras, na cena underground de Leningrado, no mais mundano e heroico, nesse filme de Kirill Serebrennikov, afinal. LETO abre em galope, elétrico, em delírio seco, intransigente, a voz baixa e profunda, enquanto o público, permanece colado às cadeiras, os pés em movimento, as cabeças em perfeita marcação, tudo no mesmo compasso de um estalo de dedos. Ninguém ousa se mexer, não podem, estão hipnotizados, mesmo estritamente vigiados, porque na antiga União Soviética se faz assim.

Há um princípio de conflito, estamos nos anos 80, às margens da desintegração e da Perestroika, a ideologia ainda dita contra os porcos capitalistas ou mesmo a cultura decadente do Ocidente. Nesse país, nessa cidade imersa em sombras e Stalin, surge aos poucos uma geração, que dita por mudança. Seu canto é um grito punk, liberal, o sol iluminado que brilha vermelho e, de repente, em qualquer lugar, num trem, nas ruas, nos palcos, “a caixa de fósforos está vazia, mas na cozinha, como uma flor azul, o gás queima. Cigarros nas mãos, chá na mesa, é fácil e não há mais nada… é tudo para nós”

Os gostos de David Bowie, Bob Dylan e Janis Joplin naturalmente assumem o papel de santos marginais. São os ícones de uma rebelião. Do protagonista, Victor Tsoï, inclusive. De seu grupo e amigos, os Kinos, também. E isso filmado, cada cena ou musical, no mais estrito cinema, que explode, vez ou outra, em arte gráfica, em rock garage, um silencioso narrador frisando que essa cena de fato não existe, nunca existiu, mas está ali filmada, preto no branco, no espirito de um cineasta que gosta da dialética, senão o valor de cada palavra. E se nO ESTUDANTE o fez através do discurso e profecia, isso dito através de um provável messias, o faz agora, em cada canção, nos diversos videoclipes que emergem em cores pela tela, o texto grafado em película, cantado e contado, cheio de energia e paixão. Sim, ao final é só rock ‘n roll, baby, eu sei, mas eu gosto.

RATING: 79/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · RIO · MOSTRA SP

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