Guerra Fria


COLD WAR (2018)Um homem. Uma mulher. Wiktor e Zula… O amor é amor e é isso: um romance nas ruinas do pós-guerra. De diferentes origens e temperamentos, eles são fatalmente incompatíveis e ainda fatalmente condenados um ao outro. E essa é a história – o filme de Pawel Pawlikowski – que atravessa os anos, tantos lugares – Polônia, Berlim, Iugoslávia e Paris – pela guerra fria, a política, as falhas de caráter e as reviravoltas infelizes do destino. Uma história de amor impossível em tempos impossíveis, que remonta a própria história do cineasta, cujos pais – Wictor e Zula – morreram em 1989, pouco antes da queda do Muro de Berlim. Tal qual essa ficção, passaram 40 anos juntos, dentro e fora do Ocidente, quebrando, perseguindo e punindo um ao outro em ambos os lados da Cortina de Ferro.

E é através do mistério desse relacionamento, na vida e na tela, um amor complicado e interrompido, dela, que veio pelo lado errado dos trilhos, de alguma cidade provinciana qualquer, que provavelmente assassinou o próprio pai – “ele me confundiu com minha mãe, então usei uma faca para mostrar a diferença” -, que pode cantar e dançar graças ao seu próprio charme pessoal e, depois, dele, oriundo de um mundo mais refinado e educado, claramente um musico talentoso, extremamente calmo e estável, certamente inteligente pela alta cultura que aprendeu, que sabe piano, ama jazz, mas não pode tocá-lo porque o estado não permite e, portanto, viverá do polish folk; é por esse amor sinuoso que o cineasta constrói sua história e o faz sob a vigilância comunista, no tom de ameaça que nos remete À VIDA DOS OUTROS, na ode à Stalin e a Reforma Agraria, toda a retórica antiocidental e nacionalista, a primitiva propaganda da mídia estatal, o clima de medo, a crise e o ressentimento projetado para escorar o apoio de pessoas simples contra a “burguesia decadente”.

E, curiosamente, um filme não sobre política, embora a história seja um ótimo contexto para dramatizar, mas sim, sobre a cultura de um povo, sua música que veio por gerações e gerações, pelo antigo folclore de pequenos povoados camponeses, toda a sua melodia, as vozes, a dança e seus trajes, o Mazurek fictício, a “Stalin Cantata”, afinal a Mazurka, que abre no acordeão e rabeca, no seu mais primitivo, nascida dos campos e da pedra fria e, ao longo da projeção, se tornando cada vez mais grandiosa, em sua sonoridade e ritmo, pela voz de Zula, pelos dedos de Wictor, a própria história de amor e perda, transportado pelo som, num trabalho belíssimo de arranjos realizado pelo pianista Marcin Masecki.

Isso numa Polônia em Preto & Branco, chiaroscuro, nos mesmos tons de IDA que lhe consagrou, mas, aqui, ainda mais bonito, pela simetria, a luz, os enquadramentos, o formato acadêmico, que compõem – junto à música – uma transição fluida de tableaux vivants, essa natureza contemplativa que perdura, pode transcender a vida, a história, este mundo. Wictor sabe. Zula também… “o amor é amor e é isso”, um diz ao outro. E o público fica com a cena final para sempre.

RATING: 84/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · RIO · MOSTRA SP

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