Capharnaüm


Cinco galinhas… Esse é o preço de uma criança, uma jovem, 11 anos de idade e “pronta para casar”, isso no Líbano, em CARPHANAÜM, nesse filme estrondoso de Nadine Labaki que se vende no mercado de peixe, às moscas, aos piolhos, na tralha, na roupa suja, entre as garrafas pets, o plástico colorido, as bacias e as panelas sujas, senão a Via Crúcis de um garoto que não pediu para nascer e, mesmo assim, tenta sobreviver nesse lugar – difícil dizer – porque lembra CIDADE DE DEUS, mas é ainda mais precário, quase um filme de Brillante Mendoza (LOLA e SERBIS em mente). E é extremamente cruel porque se passa aos olhos de um garoto, no trabalho servil de carregar a família, o pai vagabundo, mãe desajeitada, os bujões de gás, a irmã que menstruou e ninguém pode saber porque o pior seria iminente. E de fato é, porque a cineasta nos coloca em um ônibus e nos encaminha para uma segunda história, a câmera de mão e mais desgraça, nosso coração já em frangalhos, os olhos marejados, angustiados, atormentados – Chega Nadine! Mas o que a cineasta poderia fazer, senão filmar? Então, prossegue o sofrimento, esse garoto arrastando todas as suas pequenas esperanças num carrinho de mão, cada vez mais triste, cansado e perturbado. Está todo sujo, faminto e esfarrapado. Seu olhar apático. O mesmo olhar dos condenados no holocausto. Não há descanso, nenhuma identidade, sequer um sorriso. Não conseguimos. Não podemos. O filme prossegue como um rio, cada vez mais incontrolável, insuportável e, nele, nos afogamos em lágrimas.

Sim, o cinema acaba em CARPHANAÜM. Depois dele, nada mais importa. O filme termina, mas você não aceita. A música toca, os letreiros sobem, e você fica ali… Imóvel. Desorientado. Perdido. É um sonho? Um pesadelo? É uma pena. Pelo filme. Pela história. Pela inevitável Palma porque, naturalmente a expectativa vai inflá-lo, torná-lo além do que é, e inchá-lo até estrear nos cinemas, para os fatídicos comentários de “não gostei”, “não é tudo isso”… Talvez até não seja, mas saibam que a catarse que se viveu no cinema, dia 17 de maio, na Premiere em Cannes donde todos estavam aos prantos, isso ninguém tira. Muito se falou do pato de Lars Von Trier em THE HOUSE THAT JACK BUILT, mas o desconforto fica mesmo na Favela de Capharnaüm, ali, com as galinhas de Nadine Labaki. Pois é… E AGORA? PARA AONDE VAMOS? Não sei… estamos presos nessa história, tão acorrentados como os irmãos de Zain. O próprio protagonista também está preso. É a miséria absoluta. “Eles não existem. São nada. São baratas”. O filme termina e você olha para o chão. Em culpa. Em vergonha. É atordoante.

RATING: 100/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · RIO · MOSTRA SP

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