Amor até as Cinzas


Há um poema de Carl Sandburg, uma atriz de Taiyuan e um cineasta de Fenyang e todos estão envoltos em pensamentos: Dos amores de dois jovens em licença queimando como uma fogueira vermelha e açafrão (PRAZERES DESCONHECIDOS, 2002); Do amor de um trabalhador emigrante cuja esposa está a mil milhas de distância queimando com fumaça azulada (EM BUSCA DA VIDA, 2006) e do amor de um jovem, cuja namorada se casou com um homem mais velho por dinheiro, queimando com uma chama incerta (AS MONTANHAS SE SEPARAM, 2016), quase uma década se passou para, então, surgir esse filme, esse amor… um em mil… o vulcão adormecido que queima aos poucos num rastro de cinza branca. ASH IS PUREST WHITE, portanto.

E essas são as origens de um argumento, dos fragmentos de um cinema que se perdeu, tantas cenas cortadas de Zhao Tao, material de arquivo não aproveitado de outrora, dali Jia Zhang-ke revisitou e criou outra história, um Noir entre uma mulher e um homem, Qiao e Bin, que se amam, se abandonam, se encontram… seu amor e tormento, abrindo e encerrando esse conto, enquanto a China muda em eterno caos, em plena revolução capitalista.

E na tela, Zhao Tao personifica essas diferentes emoções, de tempos e filmes distantes, de PRAZERES DESCONHECIDOS, a pureza, a simplicidade e o amor incondicional; de STILL LIFE, a complexidade, a tristeza e as máscaras que camuflam os verdadeiros sentimentos. Então, uma mulher em um universo de homens, sobrevivendo pelo crime e castigo, nesse universo “fora da lei”, sem lar e em eterno conflito com o submundo das tríades chinesas, tal qual estivesse num faroeste sombrio, diante das paisagens desoladas, dos climas frios, em torno dos assentamentos das antigas minas de carvão, das pessoas nas fábricas, nas estações, nos salões de baile, saunas e karaokês. Sua protagonista está sempre em mudança, indo e vindo e, com ela, a mesma China em eterna mudança. Não à toa o filme comece em um ônibus, sempre em trânsito. Através dele, se inicia a saga pela mitologia Jiang-hu de tantas histórias e pessoas comuns. O próprio termo “Jiang-hu” significa, na filosofia chinesa, “pessoas diferentes”. E é de (e sobre) pessoas, em diversas ascensões e quedas, que o cineasta constrói esse filme, intercalando sua musa (e esposa) por tantos episódios, lugares e dialetos, e de novo nas Três Gargantas, cenário de outros filmes, terra de enorme transformação. Ou senão, simplesmente, um plano de passagem para um casal incapaz de viver seu amor sincero.

RATING: 75/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · RIO · MOSTRA SP

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