A Árvore dos Frutos Selvagens


Um jovem caminhando, olha ao redor e vê uma pereira envelhecer e logo a montanha pesando em seu coração se dissolve e desaparece. Árvores, casas, montes, nada é seu. Apenas esse momento adiante e à sombra dessa pereira. O homem. A mulher. A fera e os insetos e os galhos dourados balançando ao vento. Os cabelos esvoaçando. O corpo tremulando. A luz, tanto mais bela quanto antiga, iluminando a cena, esse instante em planos e contra planos, segundos que duram uma eternidade. Nuri Bilge Ceylan filma a história de um menino inevitavelmente arrastado para seu destino e, nesse campo, nesse protagonista, ali, cava seu sulco bem profundo e planta outro filme, um jovem inerte em sua pequenez e covardia, uma planta selvagem a envelhecer na mesma floresta. Enquanto as folhas caem, a neve cai, as estações avançam, quase 190 minutos de planos sequência, de andar e falar, e o garoto ali, paralisado diante do beijo.

Sinan está plantado. Deseja ir demais e longe demais, mas ao fazê-lo, acaba por perder sua própria orientação, sua própria identidade. Então, e de novo, ERA UMA VEZ NA ANATOLIA outro filme de começos e recusas, donde o herói anda em círculos, se aproxima, contem e recua em seu próprio crescimento e desenvolvimento. Indo e vindo na verborragia, algo tão essencial para si mesmo, mas improvável no esquema social desse lugar. É apenas uma árvore na floresta. Uma pereira selvagem entre tantas outras. Uma pessoa com dificuldade em compreender as contradições trazidas pela sua constante e inevitável vida, a partir da insuficiência de colocar as próprias contradições em saídas criativas ou a impossibilidade de negá-las.

Portanto, um cinema sobre um jovem e um sentimento de culpa que ele é incapaz de aceitar ou um destino que é incapaz de abraçar. Ou tão pouco o mosaico de pessoas ao seu redor, os favores, as injustiças, seus pais, seu país. Nenhum futuro. Apenas as dúvidas, as fraquezas, os hábitos, os tiques, e uma reaproximação muito lenta e muito improvável entre pai e filho, dia após dia, esse jovem lentamente trazido para se assemelhar ao pai que despreza, um relacionamento cuja beleza sutil se assemelha ao tronco de uma árvore retorcida, o poema com o qual se descreve as emoções do seu esplendor – e ao qual a ninguém interessa. Apenas ao jovem em outro SONO DE INVERNO, a herança de outrora, cheia de sonhos, mas agora no mesmo lugar. enraizado no mesmo solo. Há um poço ali, sem dúvida. E um filme.

RATING: 82/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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