A Favorita


Ainda é ficção, embora também seja um caso “Real” ou apenas fofoca, um conto ambientado no mundo nebuloso da rainha Ana, a última (e também menos conhecida) monarca britânica da casa real dos Stuart. Uma Rainha que inesperadamente foi ao trono e lá sofreu de gota, de guerra, das gasturas de uma educação limitada e temperamento suave, foi manca, foi tímida, nada atraente aos seus súditos, mas foi no seu (curto) reinado que a Inglaterra se tornou o Reino da Grã-Bretanha, tal qual conhecemos hoje. Dizem – ou filma Yorgos Lanthimos – que foi pelas intrincadas relações com duas mulheres ambiciosas. De um lado, Lady Sarah, sua namorada e conselheira política e, do outro, Abigail, a prima pobre de Sarah que se revela uma alpinista social.

Dito isso, o resto é um filme de trajes, uma farsa de quarto ou uma tragédia cômica, e tudo imerso em manipulações e emoções palacianas e donde as três mulheres brigam – constante e descaradamente – por amor, favores e poder. Ou talvez seja apenas conjecturas, pois ninguém sabe ao certo o que foi dito ou de fato aconteceu atrás das portas da corte de Queen Anne, muito menos em sua cama. Em última análise, é uma história de amor. O quão complicado é o amor e o quanto as pessoas podem ser equivocadas e deformadas por essas complicações.

E além disso, da dinâmica psicológica e a pirotecnia das relações interpessoais, é também um filme de época sobre o misterioso reinado de Ana Stuart que, apesar das orgias, banquetes e corridas de pato, foi um triunvirato de poder todo feminino, incomum em qualquer idade e ainda mais no pré-iluminismo. O detalhe é a visão do absurdo de Yorgos, esse olhar inquietante paras as pessoas, às vezes profundo, às vezes perverso, diria estranho. Ame ou deixe, o público reage porque são… é… pessoas. Ou é piada.

Fato é que são três mulheres imperiosas se intercalando em cena: No protagonismo, pelo tal “favoritismo”, elas atiram em pombos, galopam, correm pelos corredores, seduzem os homens no mato e fazem sexo. São personagens caprichosas, ciumentas, raivosas e, naturalmente, imperfeitas. Ao centro, Olivia Colman, em sua vulgar vergonha e lamento, é um pêndulo oscilando entre dois extremos. Por seus favores, Rachel Weisz e Emma Stone, em glória e ambiguidade, fragilidade e força, lutam pelo seu prêmio, talvez um Oscar.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Fox Searchlight Pictures, incluso notas de produção e entrevista com o diretor
RATING: 86/100

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REVIEW · VENEZA · MOSTRA SP

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