Suspiria


A primeira coisa que você nota é o sangue derramado da cabeça decepada da dançarina, que escorre por seu torso como um colar sinistro e, depois, se empoça em uma piscina carmesim de quase dois metros. Acima da jovem arqueada, o cartaz diz: “un film di Dario Argento”. E, abaixo disso, apenas uma palavra evocativa: SUSPIRIA. E é desse pôster, a imagem que Luca Guadagnino guardou para si desde os 10 anos de idade. Ele não sabia do que se tratava, nem o que significava o título em latim, mas a figura era tão poderosa que se tornou uma obsessão, suas identidades, seu cinema. Não à toa, um remake. Ou uma “releitura cover” que, ame ou deixe, nos hipnotiza como uma lâmpada de lava.

O roteiro ainda segue a premissa original: uma jovem dançarina americana se vê atraída por uma companhia de dança que secretamente abriga uma coven de bruxas, mas enquanto o original se passa na pequena cidade de Freiburg, no sudoeste da Alemanha, a versão de Guadagnino se ambienta na Guerra Fria de Berlim, em 1977, tempos de erupção do feminismo e auge dos ataques terroristas do grupo Baader-Meinhof. O que torna a experiencia mais tensa, uma vez que, na época, havia essa raiva latente da juventude alemã com suas antigas gerações, sobre o que eles perpetraram na Europa com a guerra, e que não compreendem – e muito menos assumem a responsabilidade. Então, se filma uma fábula de um momento e um lugar muito específico, onde o passado é tão sombrio que anda de mãos dadas com a escuridão. E dessa insurreição malevolente, donde não há bruxas para se descobrir, donde elas aparecem desde o primeiro momento, como um pesadelo ou sonho febril, o suspense está no panfleto social, na reivindicação feminina, também a memória histórica.

E sim, a inspiração é Dario Argento, mas a execução é puro Rainer Fassbinder: Do Giallo italiano ao modernismo alemão, Guadagnino evoca um filme de mulheres e personagens poderosos – entre elas, Ingrid Caven –, todas vestidas de bondage vermelho e cabelos esvoaçantes, seres complexos e perturbadores, às vezes malignos, ali com o propósito de lançar seu feitiço, e dançar, e dançar, e dançar, como se tal tributo estivesse imbuído de uma força poderosa e primordial. A dança enraizada na carne e no sangue, na expressão do poder, na linguagem secreta de tempos ocultos.
É um pouco de balé, um pouco de lírico e jazz e, então a dança expressionista alemã como própria expressão de algo agudo, feroz e linear. A música é o medo, o mal, a humanidade. A trilha é de Thom Yorke, do Radiohead. Já o filme, imbuído de certa paranoia claustrofóbica, de um visual invernal muito longe das cores supersaturadas do original, que flui organicamente pelos cenários, as lentes de Michael Ballhaus e Xaver Schwarzenberger, as pinturas de Balthus, pelos cinzas e marrons e ferrugem e leves sotaques vermelhos, é o puro legado de Fassbinder. Um conto realista que se justapõe aos elementos sobrenaturais e que torna o ambiente mais autêntico, mais assustador. E donde a escuridão penetra nas paredes e vice-versa.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Amazon Studios, incluso Notas de Produção e entrevista com o diretor
RATING: N/T

TRAILER

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VENEZA · PREVIEW

Comments

  • Apesar de gostar muito do Guadagnino, esse é um filme que eu não assistiria.

    Cinéfila por Natureza 3 de setembro de 2018 17:15 Responder

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