Um Elefante Sentado Quieto


São quatro horas de projeção. Quatro histórias de quatro pessoas em fuga, em apenas um dia, numa pequena vila nos confins da China. E além desse cinema, UM ELEFANTE SENTADO QUIETO espia de longe e isso é outra história: A de um diretor, Hu Bo, que ao longo do processo, ele próprio se suicidou. O fez defendendo sua arte, essas histórias, seu filme, no tempo e no tom que pensou. Por ele(s) foi até o fim, até os extremos, afinal se matou para que o paquiderme se mantivesse vivo, ali sentado, observando e observado por tantas horas, não as duas como seu produtor (Wang Xiaoshuai) tanto queria, mas as quatro. Seu primeiro e último filme ali. Toda uma vida em quatro horas.

E pelos quatro se foi. Em nota, numa última carta, e além do amor, do dinheiro, da política e da opressão, o cineasta “pensou que na beleza do mundo havia um segredo oculto. Pensou que o coração do mundo batia a um custo terrível e que a dor do mundo e sua beleza moviam-se numa relação de equidade divergente e que nesse déficit invertido, o sangue das multidões podia, em última análise, ser cobrado pela visão de uma única flor.” Sim, a citação é de Cormac McCarthy (“Todos os Belos Cavalos”), mas também se aplica aos tristes elefantes de Hu Bo: A perda progressiva da fé, mesmo nas mais ínfimas coisas e a frustação que se segue no curso de um dia, cheio de tensão, do amanhecer ao anoitecer, e ao longo do caminho, nessa sociedade encarquilhada pelo egoísmo. Para o autor, “simplesmente não existe vida ideal. É só escolher o tipo de arrependimentos com o qual estamos dispostos a viver. E, dali, prosseguir. ”

Portanto, um conto de raiva niilista, de céus perpetuamente cinzentos, donde a luz se torna impossível, qualquer esperança é inviável, seja na rua, nas casas, nos edifícios, tudo está em aparente desespero, as pessoas andam desanimadas, desfocadas, destruídas, indo e vindo como uma horda de zumbis em seus afazeres mortiços e sempre em torno desses protagonistas, os quatro, seja homens e mulheres, jovens e velhos, é um grupo em fuga, senão o vórtex dessa miséria, seres abusados, enxotados, enganados, traídos, humilhados, enlutados e traumatizados. E ali, diante do imprevisto, independente de qualquer ação, sem ao menos saber o que está acontecendo, apenas reagindo pelo instinto, pelo bem ou pelo mal, como “todos os belos cavalos” de McCarthy, como uma horda de elefantes enlouquecidos em direção do despenhadeiro, rumo à desgraça, ao caos, ao circo, os quatro tomados de incerteza, enquanto os outros, inertes e impassíveis apenas testemunham o buraco negro, vemos senão as rachaduras do mundo, e curiosamente sentados na sala escura, tal qual o elefante do título. Inacessível até o fim.

RATING: 85/100

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REVIEW · BERLIM · TIFF · RIO · INDIE

Comments

  • Parece ser um filme interessante, Maurício!

    Cinéfila por Natureza 27 de agosto de 2018 11:34 Responder

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