Dogman


Em DOGMAN, os cães são humanizados e os homens, bestializados. E nessa inversão de perspectivas, donde os animais ferozes, latindo e rosnando, por vezes são apaziguados pelo protagonista, enquanto os próprios se tornarão depois, testemunhas da brutalidade desse próprio individuo; dessa relação entre homem e animal, dominação e submissão, conflito e controle, Mateo Garrone filma um “western cibo per cani”, Sergio Leone no pet-shop ou GOMORRA no canil. Embora não necessariamente um filme de vingança e não apenas uma variação do tema entre fortes e fracos e, pelo contrário, um cinema que nos coloca em rota de colisão com nossas escolhas, o “sim” que é dito e descarrilha rapidamente para uma situação donde se torna impossível dizer “não”, do abismo entre o que somos e o que pensamos ser, da perda da inocência e da impossibilidade de mantê-la. E é desse profundo questionamento que surge um filme eloquente, um retorno às origens, os mesmos temas de L’IMBALSAMATORE e PRIMO AMORE.

Na tela, esse “dogman” é encarnado por Marcello Fonte, um homem gentil que, na tentativa de se redimir da humilhação, tem a ilusão de se libertar e, com ele, a vizinhança e talvez o mundo, ainda que de fato nada aconteça porque tudo permanece imutável e indiferente nesse fim de mundo. Um lugar de almas perdidas, incluindo aí a corrupção, a violência, o crime generalizado. E é nesse cenário desolador, na periferia donde o céu está moribundo, o mar está sujo, a vida se passa em conta gotas, nesse lugar pré-histórico, corroído, carcomido, enferrujado e lascado, donde o concreto se desfaz como pó, o parquinho apodrece na chuva e tudo está devastado e miserável, que o ator, com toda a sua doçura inerente, esse rosto peculiar que parece vir de uma Itália desaparecida, contribui decisivamente para deixar o conto cada vez mais macabro. Um cinema que parte da estética e vai se aprofundando lentamente rumo ao personagem, ao psicológico, na ameaça recorrente, até o limite, desse vínculo entre Marcello e Simoncino, um mosquito em torno do buldogue. Então, no inferno, na caverna, entre as gaiolas e as prisões, dessa curiosa patologia entre vítima e carrasco, política e sociedade, tudo se inverte, cão se rebela, dono se amansa. A nobreza é quebrada, a fidelidade dilapidada.

Um conto real, senão a própria história de “Canaro della Magliana”, isso tratado no hiper-realismo, na fábula social de um país que se perdeu e donde a lealdade incondicional, no fundo, de nada vale. Garrone, aqui, apenas purifica a história, em favor da essência, o inevitável acerto de contas, convulsivo, frontal, quase até o osso, senão uma reminiscência de GOMORRA. uma história de cachorro. Mundo cão.

RATING: 77/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF

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