Burning

BURNING


BURNING (2018)Há muito tempo, o homem perdeu o medo do fogo. Desse elementar purificado, consagrado, por vezes avassalador, que nos devora em seus delírios, na chama da felicidade, nas extorsões da tristeza, que queima, arde e acende, desse encontro casual entre homem e fogo, isso na pré-história e, desde então, ao redor das fogueiras, o homem se reúne para contar histórias. E como organismos vivos, as boas histórias vagam ao nosso redor, camufladas na sombra, no subconsciente, em algum cometa ou ocultas num vulcão. Então, Deus os criou e eles se juntaram, o fogo, as histórias, livro e cinema: Haruki Murakami e Lee Chang-Dong. Big Bang.

Uma história que coze lentamente. um conto donde nada acontece. Um homem. Uma mulher. Um gato. Então, a faísca… O mistério permanece em brasa. O gato permanece escondido. A jovem vai à África e deixa o fogo no homem. Um pequeno facho que cripta lentamente nesse protagonista. Será paixão? Seria amor? Ele está com o diabo no corpo, hipnotizado pelas chamas. E já queimado, surge um oponente. Então, o cineasta filma uma história de amor, um triangulo amoroso. Dois homens, uma mulher e o gato (Cadê o gato?). Mas não é tão simples, porque é Murakami que escreve essa história. Logo, o fogo se torna instinto, o instinto se torna ciúme, o ciúme se torna raiva. Havemos o incêndio. BURNING, o filme, o conto. Queima. Queima!

E desse ardor, o cineasta constrói outra POESIA ainda mais sutil. Há claramente um confronto aqui, uma batalha premente. O conto-filme em sua metalinguagem cita outra história, “Barn Burning”, de William Faulkner, esse sim sobre a raiva. A história de um homem e sua raiva contra a vida e o mundo, dentro de uma história de um homem e sua raiva latente. Há combustível suficiente? Pois é… não à toa o gato desaparece. Ele percebe essas coisas.

Em ambas as histórias existe um celeiro-estufa. É a metáfora. A realidade. O vazio. Tem uma forma física, mas é transparente e não tem nada dentro. Já teve sua história naturalmente, mas hoje é inútil. Tal qual o protagonista, queima na inercia que corre nas veias, na febre que ferve no sangue. Eis o impulso. A fúria. Ação e reação. Fogo e cinza. Uma vez extinto, essa é a história de um homem e um gato. E o gato se foi.

RATING: 84/100

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CANNES · REVIEW

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