Lazzaro Felice


LAZZARO FELICE é a história de uma pequena santidade, sem milagres, sem poderes ou qualquer fé além do ser humano. É a santidade de viver neste mundo e somente pelo próximo. Porque é no outro que está o caminho do bem, uma jornada que os homens sempre ignoram, mas sempre reaparece para questioná-los. Um filme, também, sobre a santidade da Itália, sobre um tempo que se foi, os vários “Lazzaros felizes”, uma organização dedicada – única e exclusivamente – em cuidar dos campos, aqui do tabaco e do fardo de cultivá-lo em modo artesanal. Um paraíso, de alguma forma, distante das muitas e variadas ameaças, a indústria, o capitalismo. É o retorno à labuta dos camponeses, trabalhando a terra, a agricultura, um lugar rustico, notável, eloquente e um pouco opressivo. E apesar disso, nesse “paraíso”, todos crescem com seus desejos, além da vontade da Marquesa Alfonsina de Luna, dessa vida comunitária, dessa utopia laboriosa.

E assim, depois de CORPO CELESTE e AS MARAVILHAS, Alice Rohrwacher se inclina novamente sobre as fraturas morais e ideológicas de uma pequena comunidade. Uma crônica delicada e sensível, sem qualquer problema palpável, claro, apenas a tensão que está na base dessa relação servil, todos expostos sob a câmera naturalista da cineasta, meio distanciada, meio dissidente, como se o foco estivesse apenas na vida rural, as delicias do campo ou a fantasia enganosa, ao invés das pessoas de carne e osso. Um cinema que toma a palavra e o microfone através do regional. Um mundo vagaroso que poderia explodir, como seria tão obvio diante de tanta frustração, mas que Rohrwacher prefere preservar. Talvez pela nostalgia, ou então numa preciosa capsula do tempo.

O filme em si, versa sobre os encontros e desencontros entre Lazzaro, um jovem camponês tão bondoso que é quase confundido com o simplório, e Tancredi, um jovem nobre, amaldiçoado pela imaginação. Então, a vida na isolada aldeia “Inviolata” é perturbada por um estranho sequestro e, daí uma improvável aliança. Uma amizade tão preciosa que viajará pelo tempo, adiante e além, até a grande cidade, e donde o protagonista se torna um fragmento do passado perdido no moderno mundo.

E por essas desventuras, no tom da fabula, com todas as suas inconsistências, mistérios recorrências, heróis e vilões, e sempre com amor e humor, Alice conta aos poucos a tragédia que devastou o seu país, nomeadamente a “passagem de uma Idade Média material à uma Idade Média humana”: O faz com abstração, certo simbolismo, mas com um gancho na realidade, no fim da civilização rural, a migração para as fronteiras da cidade e donde milhares foram pela modernidade, mas jamais a conheceram. Um cenário de explorações sujas que chega ao fim e se transforma em outra exploração mais nova, mais brilhante, mais atraente. Sem saber, Lazzaro viaja no tempo e, embora questione as imagens do presente, logo as assimila. Nada mudou, aparentemente. Só nos resta, então, a inocência de acreditar.

RATING: 82/100

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REVIEW · CANNES

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