Todos lo Saben


Os mecanismos se movem delicadamente. É o relógio que rumina em suas engrenagens, o tempo que culmina no longo badalar dos sinos e dos letreiros. O “tic-tac” que – TODOS LO SABEN – vem e vai, se escondeu no passado, nos jornais, decantou num bom vinho, nos rumores e amores. O que virá é um mistério. Asghar Farhadi filma, então, esses instantes. Sua câmera rodopia entre personagens que vão e vem, todos nos preparativos de um casamento. Há uma vila, daquelas típicas espanholas, conversa fiada no bar, na barbearia e nas janelas. As pessoas olham e comentam. Há uma casa, vários quartos e a família vai se reunindo, aparecendo, o tempo voa inesperadamente em vários cortes e flashes, entre um personagem e outro. O filme promete felicidade, música e dança. Estamos felizes tal qual os sinos no campanário. Tudo é muito rápido e, de repente, o cineasta faz a sua mágica, fecha uma porta e o tempo para. Penélope Cruz vai ao sótão, tem sua cena e nós, temos nosso melodrama espanhol. E “todos lo saben nada”.

Mas nos bastidores, todos sabiam, todos diziam, que esse filme de Farhadi era uma bomba. Não o é. Mas À PROCURA DE ELLY, isso na Espanha, com certo dinheiro e dois Oscars no bolso, o cineasta consegue amadurecer (ou comercializar?) sua obra, isso para o bem ou para o mal. Como sempre, trata-se de uma história radical, sobre tudo ou nada, verdades e mentiras e, sim, o roteiro é engenhoso, cheio de reviravoltas e tensões. Ou pretende sê-lo se o público aceitar as pequenas coincidências, as nuances que separam o que é verossímil ou não. Na prática, lembra (e muito) TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME, o suceder misterioso dos fatos, os arranjos curiosos do destino, esse passado nebuloso que se esconde nos prazeres de uma tarde. Não é ruim. Mas parece que a fórmula “Farhadi” de cinema se esgotou (ou hollywoodizou).

Tecnicamente é bem feito, filmado nas cores de Almodóvar, nos seus vermelhos e amarelos carregados, nesse sol ibérico luminoso, nas sequências noturnas que nos lembram ERA UMA VEZ EM ANATÓLIA. A fotografia é do lendário José Luis Alcaine que, aliás, filmou todos os filmes de Pedro que eu me lembre. E sobre o elenco, esse é estelar: Inclui Penélope Cruz, que carrega consigo a paixão (e o choro) de VOLVER. Javier Bardem, que acaba roubando o filme para si (senão uma Quinta de Vinhos bem barata) e donde emerge uma luz, um esplendor, uma simplicidade que é semelhante à certa forma de sabedoria e, não à toa, recaia sobre ele toda essa cruz. E, claro, Ricardo Dárin, mas esse não passa de um corno manso, e sinto muito dizê-lo.

E diante dos conflitos que surgem, a tempestade que culmina no thriller familiar, no melodrama social, no suspense de Agatha Christie, ao fundo vemos um filme de aldeia, a natureza e o burburinho desses aldeões, nas suas relações, no “disse-me-disse” de sentimentos não ditos. A fofoca pelo qual todo esse filme se sustenta, cada personagem cuidando da vida do outro. Um julgando o outro. Embora cada um tenha sua culpa e eles próprios saibam disso. Personagens complexos, delicados, multifacetados. Nenhum mocinho ou bandido. Apenas ação e reação, suspense e expectativa, seja do passado que ressurge, do presente que asfixia, mesmo no final, do futuro que se promete.

RATING: 72/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF

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