Os Fantasmas de Ismael


De um cinema imerso em conflitos, romances e obsessões, do embate entre homens e mulheres, REIS E RAINHAS, desse sentimento perpetuo que sempre nos embriaga, nos devora e nos move, Arnaud Desplechin retorna à Croisette, seus amores e à Mathieu Almaric. E não à toa, seu texto nos remete à Ismael, o narrador de Moby Dick, de Herman Melville, obra-prima blasfema na qual a grande baleia é Deus e donde o duelo ocorre com amor e ódio entre duas ferocidades: Entre a fera especificamente com seus instintos de fera, e a outra fera, mais conhecida como homem, o ser humano e sua fragilidade. E é nesse cinema, que a natureza eclode, um flerte ao mesmo personagem do filme de 2004, o mesmo Ismael interpretado por Almaric em REIS E RAINHAS, mas agora transitando da música para o cinema, de Emmanuelle Devos para Marion Cotillard. Sim, são os mesmos temas, mas a originalidade está na forma como eles são renovados, nos gêneros e estilos, seja nUM CONTO DE NATAL, na TERAPIA INTENSIVA ou em singelas TRÊS LEMBRANÇAS DA MINHA JUVENTUDE, não importa, o cineasta sempre volta ao mesmo ponto, aos mesmos fantasmas. LES FANTÔMES D’ISMAËL. Ame ou deixe.

Seu filme está imerso no suspense. Eclode em tambores, na urgência, no enigma de Dedalus: Quem é esse homem? Quais sãos seus segredos? O rumor se espalha, inflama, de boca em boca, nas mesas dos restaurantes, nas entrevistas, dali vemos Louis Garrel, o anjo, o espião, o mistério. Por fim, é nada. É texto. É filme. Fumaça. O cineasta escreve, mas está cansado. Suas sombras são nada. Suas fotos se perderam. Nada restou. Apenas esse cinema, apenas o cineasta. Que Desplechin filma na tormenta, no resto de humanidade e um pouco de Charlotte Gainsbourg. Desse romance, aos poucos, a neblina se dissipa, mas o fantasma está ali, nos pesadelos, nos cortes secos, nesse (intenso) fluxo narrativo que nos entorpece como um bom livro.

Então, são duas histórias, do escritor e seu personagem, de irmãos em ficção e realidade. E, claro, duas mulheres, emolduradas pela tela, a praia, o romance que se foi, fugiu ou nos restou. A trilha pontuando cada momento, a respiração de Carlotta na praia, o passado retornando como uma aparição mórbida pela areia. Tão pálida como Moby Dick, vemos uma personagem surgir e nos aterrorizar, vindo de não se sabe de onde, dos mortos, de uma terra distante, do além e, com ela, vemos o vortex, o pesadelo, também um triangulo. Em seu epitáfio, uma única palavra: “desaparecida”. Uma tumba sem corpo. Um filme sem rosto. Voltamos ÀS HORAS, ao personagem que escreve, a pessoa que vive, e de novo ao drama familiar, do rei e suas rainhas e perigosos affairs donde Ismaël é apenas um brinquedo. Uma criança. Pertence à Cotillard. À Arnauld Desplechin. E com eles, extasiados, vemos os monólogos, as lembranças, os sentimentos que queimam, nos consomem, ardem. Donde cada frame é mentira e verdade. Uma chibata. Uma aparição que nos sufoca por tal presença doentia, pelo suspense, pelo noir. Ne me laissez pas. Ne me laissez pas. Ne me laissez pas…

OS FANTASMAS DE ISMAEL é (puro) cinema. Senão, 8 ½ de Desplechin: A história de um cineasta, perdido entre suas mulheres, o passado e o presente, seu filme e seus personagens, a vagar pela projeção, seu filme, como se descesse a uma velha tumba encarquilhada e fria e, lá, encontrasse a (verdadeira) fera, um espírito ou feiticeira. E, ali, “espreitando mais e mais as profundidades, ele viu bem longe, lá embaixo, uma branca mancha vivente, não maior do que uma doninha branca, com admirável celeridade e aumentando ao emergir, até que se virou, e então se viram claramente suas longas e arqueadas fieiras de dentes brancos e brilhantes, ascendendo do fundo indistinguível”. Essa é Moby Dick. Também Marion Cotillard, vinda dos mortos, sem maquiagem, pálida e fantasmagórica. Sempre a nos sufocar com sua presença, nos roubar o ar, nossa luz, qualquer sensação de segurança, apenas por estar ali, nos olhando, nos espreitando. Existindo. Dançando. E esse é o suspense, o (intenso) filme, nossa obsessão.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Le Pacte, incluindo notas de produção e um trecho de “Moby Dick”, de Herman Melville
RATING: 74/100

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FILMES · CANNES

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