Transit

TRANSIT


TRANSIT (2018)As pessoas em TRANSIT estão encurraladas em Marselha. Estão ali esperando por navios, vistos e um tedioso jogo de burocracia, selos e carimbos infindáveis. Sua percepção de tempo se ajusta à validade de seus vistos de viagem e eles vivem do prazo até o prazo. Sim, eles estão em trânsito – não há nenhuma maneira de voltar e não há caminho a seguir. Ninguém os levará ou cuidará deles. Eles passam despercebidos – exceto pela polícia, os “colaboradores” e as câmeras de segurança. Vivem entre a guerra e a paz, a vida e a morte, o ontem e o amanhã. O presente se apresenta num flash, no agora e nesse caos carregado de tensão por àqueles que esperam, esperam e esperam. São ninguém. São fantasmas e o cinema adora fantasmas. Christian Petzold, portanto, filme o terror.

Seu filme é um espaço de trânsito, uma terra passiva e agressiva de ninguém, um reino interino em que nós, o público, estamos simultaneamente ausentes e presentes. Seu protagonista é alguém que foi expurgado da história e da vida. Alguém tomado pelo fluxo, a esperança de se colocar em movimento. Ele deseja uma história própria e, dessa intenção, toma a história do alheio, uma voz, um fragmento de uma novela deixada por um autor qualquer. Um manuscrito e um lugar, ora encenado, ora retratado, uma sombra e o mar azul, eis o refúgio (ou purgatório?) em vista. Ou talvez a armadilha, porque o destino sempre reserva algumas surpresas.

Aqui, o cineasta filma o romance homônimo de Anna Seghers, escrito em 1942, mas o faz através de paralelos deslumbrantes, quase estranhos entre os fatos históricos e atuais. Ainda é a história de um refugiado alemão em tempos de ocupação nazista, mas o cenário é a Marselha de hoje, e, portanto, uma sobreposição de radiosa atualidade: A identidade perdida sob os campos de concentração transita, agora, para a crise dos refugiados. Sim, ainda é um conto sobre exilio, mas num enfoque completamente original, diria inquietante. Filmado em Cinemascope, nem retro, nem moderno demais, sob a lente mais comum, na cidade tal qual ela é, em camisas clássicas e ternos clássicos, pelos pequenos hotéis e bares portuários, por suas vielas e cotidiano, os grafites e os arranha-céus, TRANSIT se coloca como um melodrama de identidades, um dilema de passagem, de pessoas presas em círculo vicioso, no passado, no presente, estagnadas, oprimidas em (meta) cinema e linguagem. Sua história fica em suspenso. O tempo passa. Sua história se repete. É, portanto, o mesmo limbo. Marselha é apenas a metáfora desse ciclo insolúvel.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela The Match Factory, incluso notas de produção e entrevista com o diretor
RATING: N/T

TRAILER

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BERLIM · PREVIEW

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