Açúcar

AÇUCAR


O filme sequer começou e você sente o mar… O mar em suas vindas e idas. O mar que gorjeia há séculos suas desventuras de maré viva. O mar que nos embebe em lágrimas, em plenitude, em desafios. O mar é sal. O filme é AÇÚCAR. E assim, como se fosse “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway, o filme de Renata Pinheiro & Sergio Oliveira parte do mar e uma busca, não do velho Santiago e seu pequeno barco, mas de Maeve Jenkins e sua jangada, ali, diante da mata, do vento, do verde e dos oboés. Não à caça da baleia branca, mas ao sonho maior, ao esplendor do Engenho Wanderley que um dia foi e, agora não é mais, se perdeu no tempo, na memória, nas dívidas desse grande Leviatã engolido pelo oceano de cana.

Na tela, Maeve é Bethânia, do clã dos Wanderley, da poderosa Refinaria dos Wanderley, seu barco é a Casa Grande, naufragada nas nuvens e no vento. Que range na soberba de outrora, nas ruínas e nos bibelôs, nos retratos amarelados, nas paredes esverdeadas, no candelabro âncora que escora o passado. A baleia está ali, surge e desaparece do nada, no sussurro, na sugestão, na aparição do curupira ou coisa ruim.

Um filme que se desenvolve tal qual um embate de capoeira, nos batuques de Dona Branca e Zé Pretinho, na luta entre o antigo e o novo, o retrogrado e o moderno, a mulher e a natureza, o sucesso e o fracasso. Sim, Bethânia tem sua baleia branca, ao menos a carcaça, mas os tubarões estão lá fora, circundado seu tesouro, afoitos pelo que lhe resta. “Precisamos conhecer o inimigo”, alguém diz, mas o próprio inimigo é a cabeça da protagonista, seus pesadelos e fetiches, a mata fechada que traz consigo a noite e a loucura. E ela, sem luz, qualquer luz vagueia pela sua ambição, à esmo,, enquanto lá fora corre os espíritos e os tambores. É um choque de culturas. O velho e o mar. A mulher e o mar. Esse filme e seu publico. Ame ou deixe, a protagonista fez a sua escolha. Hemingway escreveu que “um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. Aparentemente, Bethânia foi.

RATING: 72/100

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