Scary Mother

SCARY MOTHER


O título sugere um filme de terror, mas o terror, o suspense de SCARY MOTHER não é o gênero em si, os monstros são o “modus operandi” de uma mulher, presa em seu cotidiano, no apartamento abarrotado, à sua família. E ela, tão esquálida, prestes a sumir na tela, o rosto em perpétuo sofrimento ou desgosto ou tédio. Nenhum sorriso. Indo e vindo pela terra aos sussurros, aos segredos, como um Nosferatu que emerge das sombras e das sombras vai se esconder. A mulher de casaco de visom sofre. Se esgueira pelas portas, pelas coisinhas, sua pele é transparente. Suas veias são visíveis. São o papel para algo novo, uma novela mundana. Tenham medo…

Então, o silêncio, uma mulher de cabelos vermelhos invade a tela, um estranho à porta. Ela ainda não contou seu segredo. O que é fantástico. A família desconfia e, de repente, é inevitável, a verdade, o livro, o diário, as palavras que jorram num pedido de socorro disfarçadas de ficção, mas não o são porque sua autora é um fantasma (uma escritora-fantasma?). Seu texto é a loucura de um poeta, a depressão de um artista. A família – seus personagens – obviamente não entendem. E eis o dilema, o filme de Ana Urushadze.

Como num sonho qualquer, o filme se escreve no surreal, o livro se lê nos rejuntes, o texto se desliza pelas mãos, pelos braços e dão lugar ao sono. E imersos nesse entorpecimento, vemos o renascimento de Manananggal, a mulher ordinária que matou sua própria personalidade, outrora dona de casa pelo pior caminho e, dali, por caminhos mitológicos, vai ao inesperado, ressurgindo no vampiresco, ganhando asas, liberdade e indo à caça. E esse é o delírio da protagonista, a estranha sensação de conforto e felicidade, o vento gélido da morte a lhe confundir o juízo, entre o sono e a vigília, a psicose e o talento, a autobiografia e o romance e cada vez mais fundo pelo subconsciente, sempre acordada, sempre em alerta, o dia e a noite, o interno e o externo, o espaço e o tempo cada vez mais confusos, enquanto se destrói tudo, a família, o feminino, o materno, o sexo. Não há palavras. Não há escapatória. Somente trevas.

Ana filma o pesadelo: A família incrédula diante de uma mulher que – parece – insana e se esconde na claustrofobia, nos tons frios, cinzentos, a câmera colada nos personagens, os frames recortados, denunciando o mais ínfimo, o mais gélido. O que fazer? Publicar ou não publicar seu livro? Expor ou não expor seu grito? Sua família… O final é soberbo, mas não é o fim. Manana ainda tem muito a escrever. E o público a pensar.

RATING: 80/100

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LOCARNO · MOSTRA SP · REVIEW

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