La Telenovela Errante

TELENOVELA ERRANTE


Em 1990, Raoul Ruiz convidou alguns notáveis da cena cultural para participar de uma oficina. E desse pequeno laboratório, seis dias de trabalho entre técnicos, atores, jornalistas, escritores e espectadores, talvez um filme, talvez um sonho, desse workshop nascia LA TELENOVELA ERRANTE. Um cinema que se perdeu no tempo, há muito esquecido, todo esse material bruto de filmagem, os enormes e conservados carreteis de 16mm, o roteiro original escrito à máquina, tudo foi encontrado, restaurado e montado. E novamente por Valeria Sarmiento, sua companheira, sua viúva, a exemplo das LINHAS DE WELLINGTON e LA NOCHE DE ENFRENTE. E isso 27 anos depois do experimento, seis anos depois da morte do cineasta. Algo visionário pelo tempo e contexto.

E é extraordinário também pelo cinema que se propõe: Um filme que rodeia a telenovela, na verdade um elenco de “soap operas”, quatro províncias audiovisuais em provável confronto. Que submergem nos problemas políticos e econômicos do Chile (daquela época? de agora?) numa sequencia de episódios televisivos, à noite, em horário nobre e sob os clichês do gênero, numa espécie de radio-teatro. E ao fundo, sob um olhar (intelectual, sensorial, poético?) que só o diretor é capaz de filmar porque brinca – além da realidade – com essa luz, a sombra, tudo num balé hipnótico, coreografado, idealizado, quase um enigma, um filme-labirinto, um palácio imaginado ou uma mitologia qualquer que se constrói em película, isso na tela pequena do televisor ou na gigantesca do cinema, não importa, porque desse caleidoscópio de situações, se vê o verdadeiro Chile de outrora, seu “Vale Tudo”, a “Selva de Pedra”, os rudimentos de um país que ainda engatinhava pela democracia, ainda traumatizado por Pinochet.

Então, vemos muito bar, reflexões, bifurcações e ficções na cantina, na conversa e na noite, mas nada é preto no branco. Há uma nuvem que borra a realidade, um filtro que satura as cores num tom ultrajante e, nas entrelinhas, os diálogos que revelam um Ruiz em estado puro, o pendulo das palavras que vão e vêm, a câmera que vêm e vai, os personagens do limbo emergindo e ao limbo retornando. Todo o jogo de palavras e contradições, campo e contra campo, versos e exílio, mulheres abandonadas e apaixonadas. E vai além, pelas expressões, a fumaça, a atmosfera, o cenário kitsch, a comedia de absurdo, tudo tão lúdico, tão palpável, senão um objeto estranho, extremamente raro e digno de cult(o). E, sim, o cineasta em sua essência (ou primórdios).

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Poetastros, incluso os artigos de Rodrigo González M. para o La Tercera, intitulado “La Telenovela Errante de Raúl Ruiz: un modelo para armar” & Marilú Ortiz de Rozas para o El Mercurio, intitulado “El eslabón perdido de Raúl Ruiz: La telenovela errante”, ambos anexados no material de imprensa
RATING: N/T

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LOCARNO · MOSTRA SP · PREVIEW

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