Félicité

FÉLICITÉ


FÉLICITÉ é uma coisa viva. É sentido e sentimento. É inspiração profunda que anima. Que encanta em todos os seus contornos. É um poder sempre em movimento. É uma rainha que incentiva todas as forças, de todas as inúmeras formas por sua simples presença. Aquém da santidade, da inefabilidade, do sigilo da noite, distante do mundo, acima das memorias, dos desejos, dos sonhos, é alegria multicor, esperança vã, talvez paixão. Félicité respira, engole, tem um coração humano. É negra africana. Mulher. Mãe. Também é música.

E sob os altares da noite, pela projeção que encanta todos os homens, Félicité é um filme (de Alain Gomis), um poema (de Novalis), mesmo uma atriz desconhecida (Véro Tshanda Beya). É algo real: A dialética de luta e aceitação que permeia cada dia. São os tambores de Kasai Allstars, seu lado bruto, a textura de suas vozes. Um mantra que se canta em energia, em presença. Quase numa hipnose rítmica.

É também a história de uma mulher “meio viva e meio morta”, diante da vida e do mundo, do filho e do abismo e sempre através da noite. Isso em Kinshasa, pelo caos e o contraditório. Em uma cidade donde a natureza tem força e cobre a todos rapidamente. De um Congo de cem anos de destruição, de uma colonização insana, de uma ditadura para a guerra. Um lugar paradoxal que esconde riquezas e pobrezas. E é ali que o cineasta filma a felicidade: a câmera diante dos personagens nus, o cenário urbano, cheio de graxa, se confundindo com a floresta, enquanto se entoa os velhos folclores, as canções transcendentais, elétricas, alegóricas, o ritual xamânico de um tempo que se foi.

E ao centro de tudo, num movimento perpétuo entre resignação, escândalo e reconciliação com a vida, caindo em um corpo, caindo em uma história, em um contexto insuportável, senão a estranheza de si mesmo, Félicité corre pela projeção afora, contra o tempo, por dinheiro, enquanto o cineasta experimenta dramas e utopias, através do silêncio e do invisível. A luz quase em um sussurro. Sem voz. Sem Tabu. Apenas “nós”. Eis o chamado, o vestígio, o elo perdido, quase desaparecido, pelo qual a África dá vida e define as respostas. É central neste mundo globalizado e será cada vez mais. É o presente. E é vivo.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Makna, incluso a entrevista com o diretor e trechos do poema “Hymns to the Night”, de Novalis
RATING: N/T

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BERLIM · MOSTRA SP · PREVIEW · TIFF

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