Madame Hyde

MADAME HYDE


De um clássico conto de horror, Serge Bozon divide Isabelle Huppert em dois opostos, o bem e o mal, Jekyll e Hyde, em Marie Géquil e MADAME HYDE e ao fazê-lo, moldando essa atriz no mais obscuro, sombrio, e perturbador, ele cria um fascinante estudo de personagem, repleto de impulsos e repressões, construção e destruição, dia e noite. E isso na escola, no choque de realidade, no difícil processo de ensinar.

E nada mais do livro de Robert Louis Stevenson, de 1886, apenas esse tratado de personalidade, a transformação de uma atriz, aqui professora e cientista, não como argumento de um filme de terror ou fantasia, mas como tema principal de estudo, num cinema que orbita no universo acadêmico, que separa bons e (péssimos) professores. E dessa metamorfose, um acidente que lhe salvará (pedagogicamente) e a destruirá (intimamente), vemos uma mulher, outrora apagada, temerária e humilhada, aos poucos florescer, e dali se tornar o “monstro” que o titulo sugere. Não que Madame Hyde seja o demônio escondido dentro de Madame Géquil, que Hyde seja mais sexualmente obcecada, demoníaca ou pagã que Géquil, mas como metaforicamente isso aflora em seu trabalho, no ensino, na escola, em torno de um aluno, não apenas um aluno ruim, mas um tanto deficiente. Então, Sra. Géquil cuida dele de dia, na escola, e Sra. Hyde cuida dele de noite, nos projetos habitacionais. E com ele, um mau professor se tornará um bom professor. Esse é o filme que Bozon nos propõe.

E dessa simbiose, a transmissão de conhecimento, as anedotas da profissão, isso filmado entre o simples e o sensual, o econômico e o suntuoso, todo um movimento de câmera sinuoso e discretamente complexo, cada escolha trazendo uma suavidade à imagem, uma riqueza para as cores, certa luz para a sala de aula ou estilização para as cenas noturnas, desse conjunto imerso no caos diário, vemos Huppert, tão pequena e frágil, seu corpo quase quebradiço a se fustigar por um raio e um futuro, senão a transformação, que nos guia, nos intriga, às vezes choca. Como a sala de aula. Como um bom filme.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela MK2 Films, incluso a entrevista com o diretor
RATING: N/T

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LOCARNO · PREVIEW

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