Dunkirk

DUNKIRK

Primeiro o silêncio. Depois, o som e a fúria. Com poucos minutos de cena, Hans Zimmer começa a contar o tempo, os tiros, a guerra. Como um estranho metrônomo, a trilha segue o pesadelo no mesmo ritmo e compasso. Tic tac tic tac tic tac, o relógio se confunde com a frequência cardíaca, a adrenalina sobe, os pelos se arrepiam. Christopher Nolan filma o resto em aparente ordem e limpeza. A praia deserta. O mar calmo. Os soldados enfileirados num infinito suspense, mas o compositor orquestra o caos. São bombas? São bumbos? Logo se avista o inimigo. O público não o vê. Mas pelo olhar dos soldados ao longe, logo se sente.

Não há qualquer alemão, não se vê sangue, mas se sente a guerra. O embate cirúrgico entre imagem e som, a história e nossos sentidos. Você não vê, mas ouve e percebe os ponteiros do relógio. Incomodo. Insuportável. Tonitruante. É o tempo que se esgota pela terra, pelo mar, pelo ar. São as horas, minutos e segundos para a total aniquilação. Três histórias, trezentos mil soldados e tantos outros figurantes a morrer na praia. Nada fazem senão boiar, remar, rezar, esperar ou sobreviver, indo e vindo a cada tiroteio, com a maré que encharca até os ossos, o sal que impregna a pele. A morte empesteando o ar, os nervos. A fumaça no horizonte delimitando o perímetro, destruindo DUNKIRK e os franceses. Estamos em alerta. Nolan filma o vazio. Zimmer grita desespero.

Na tela, não há rostos conhecidos. Talvez alguns e em breves cenas: Kenneth Branagh é o comandante-narrador. Com poucas palavras situa a derrota. Com o olhar, dita o nervosismo; Tom Hardy é o herói-observador, seu avião é um caça-kamikaze, rumo à redenção, ao ápice final de um filme que não termina nos créditos finais; Mark Rylance é a esperança, o pouco que resta em seu pequeno barco, o motorzinho aos trancos e barrancos atravessando o Canal da Mancha, devagar e sempre, se confundindo com a trilha, os sobreviventes, os frangalhos. Tuc tuc tuc tuc tuc. Zimmer é onipresente.

Pelo cinema, ecoa um grande maquinário de guerra, navios enferrujando, a maré retumbando, aviões zunindo, estalidos e estrondos. O cineasta filma tais engrenagens com maliciosa sonoplastia. Cada soldado, correia e mola em preciosa mise-en-scène. E tudo imerso pelo mar, o azul, a água que acaba por nos afogar, nessa calmaria, na claustrofobia, na ansiedade pelo qual se contam esses três episódios, os três ponteiros do relógio se convergindo em flash back e flash foward. Tic tac tic tac tic tac. E é assim até a hora H, o dia D. Então, silêncio. É o fim. Talvez um recomeço.

RATING: 80/100

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Comments

  • O que me chamou mais a atenção, em “Dunkirk”, além da parte técnica do longa, especialmente a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia, a montagem; foi a forma como Christopher Nolan estruturou seu filme. Me senti como se estivesse assistindo a um grande suspense psicológico, sem saber quem era o inimigo.

    Cinéfila por Natureza 11 de agosto de 2017 13:17 Responder

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