Na Vertical

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De UM ESTRANHO NO LAGO para se tornar um fenômeno em Cannes, Alain Guiraudie segue sua libido de filmar, agora em um road-movie pelo coração da França, mais precisamente num lugar donde os “desejos secretos são revelados”. Diga-se, desejos de um outro cineasta, na tela, Damien Bonnard, um jovem seduzido por uma pastora, que pare o seu filho e depois parte, abandonando o pai e a criança. E com ela, com ele, partimos nessa excursão onírica, uma série de encontros inesperados e incomuns donde cada cineasta busca sua inspiração. E cada qual com suas artimanhas, em algum lugar da estrada, em algum lugar do campo. Ali vemos um mundo (particular), um cinema (inclassificável) e um rosto (estranho). “Já pensou em trabalhar com cinema? ”. A reposta é um lacônico “não! ”. “Gostaria de trabalhar com cinema? ”. E novamente outra negativa. Os cineastas estão na caça: Por um cenário. Uma história. Algo para contar.

E o fazem imprevisivelmente pelo desejo (ir)racional: Um homem. O nada. A paisagem. A câmera persegue o protagonista e sua absurda história, um conto de fadas de homens e lobos, humanos e animais, isso em cada passo. Cada movimento. Esse é o herói (e o diretor). Depois, a donzela, a mocinha. Logo um encontro, um beijo, caricias e vertigens. Um bebê. O filme vai se avolumando. Surge o sogro, um velho, um mendigo e a psicanalista. Um toque de cinema grego e voilá: Uma comedia de absurdos, de fetiches, do fantástico, de alguém em busca, mas também em fuga, de casa em casa, de um “não-lugar” para outro, a situação cada vez mais surreal.

Um estranho no campo, a montanha infestada de lobos, os personagens indo e vindo como sugerem os sonhos. Partem e do nada surgem. Em lugares donde não deveriam estar, ou cuja conexão é bem improvável. Seria um sonho? Um pesadelo? O filme sugere “rester vertical”, mas as pestanas cansam, e logo embarcamos nessa simbiose, de um homem e seu bebê em busca de algo. Nada para contar. Nada para ver. Não tem cinema. Não tem roteiro. Apenas distúrbios, audácia, um pouco de delírio. Um filme errático, sobretudo, e que causa certo “suicídio assistido” em nossas expectativas.

RATING: 65/100

TRAILER

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CANNES · FILMES · INDIE · MIX BRASIL · RIO

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