The Killing of a Sacred Deer

THE KILLING OF A SACRED DEER


Dos pequenos molares de DENTE CANINO aos velhos montes dos ALPES suíços, Yorgos Lanthimos sempre filma o mais bizarro e distópico dos mundos. Seu estilo é o próprio sui generis do cinema grego, senão diversas metáforas sociais para descrever o homem, sua natureza e seus diversos relacionamentos. Pode ser entre lagostas, pais e filhos, mesmo os mortos, não importa, porque nesse roteiro familiar, estrito e formal, ele filma o vazio e, dali o subverte em conflito, em sacrifício, na “morte de um cervo sagrado”, seja pelo exemplo, pela polêmica ou somente para aturdir. Doa a quem doer.

Então, novamente temos um suspense mesquinho com toques de fantástico, um conto clássico de Eurípides sobre a tragédia de uma família perfeita, de Colin Farrell e Nicole Kidman, diante do mal, de um adolescente, do bizarro. FUNNY GAMES, diria Haneke, mas aqui vai além pelo radicalismo inclassificável, irreverente, incomodo e transgressor dessa projeção. Orai por eles. Orai por nós.

Do mal-estar, sabe-se, não se pode escapar… Yorgos destorce cada cena, amplia os horizontes, filma de longe, do alto, fora de proporção. Como num microscópio cinematográfico, ele abstrai, introspecta. Sua câmera é um bisturi. Seu olhar é frio, estéril, extremamente clínico. O primeiro frame, um close-up de um coração batendo, mostra vida, mas seu filme é morte, seus personagens são tedio e apatia. Estão dopados? Anestesiados? Sonolentos? A vida é monótona (necessariamente monótona). Com a projeção, caímos no mesmo estupor. As pernas ficam dormentes. Os músculos, rígidos. Incapazes de fugir, tal qual um cervo a ser abatido, ficamos ali, atordoados. Não há escolha possível (E para esse cineasta nunca há). Estamos morrendo aos poucos. Essa família está morrendo. E todos são indiferentes. Não há mais tempo (E daí a obsessão com os relógios de pulso).

O final é a salvação. Daí, dos créditos, o público pode escolher entre ama-lo ou odiá-lo como se fosse um jogo de “uni dune te”. E é desse céu e inferno, donde o próprio Colin Farrell brinca de cabra-cega, que vemos toda a intransigência diabólica de um cineasta que filma sob a espada da justiça. E o faz pela figura de Martin, desse garoto que surge do nada e cuja maldição requer a morte de um inocente, tal qual um conto bíblico. “Olho por olho, dente por DENTE (CANINO?)”. Não há salvação. Nunca há. E esse é o calvário, senão a vingança de um diretor que filma a nossa inquietante penitencia.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Film4, incluindo notas de produção
RATING: 68/100

TRAILER

Article Categories:
CANNES · REVIEW · TIFF

Deixe uma resposta