L´Amant Double

L-AMANT DOUBLE


François Ozon se olhou no espelho e nele viu Brian De Palma refletido. E nesse filme de cineastas duplos, de AMANTES DUPLOS, de “homme fatale”, o suspense erótico filmado no mais clean, contemporâneo e moderno possível, Pedro Almodóvar certamente viu um pouco do inicio de sua carreira, toda a pulsão sexual de CARNE TRÊMULA, ATA-ME e A PELE QUE HABITO; Roman Polanski certamente vê O BEBÊ DE ROSEMARY; O gato de ELLE, tal qual um fetiche malicioso, espia tudo dos mortos; Marine Vacth, no Museu, observa as pessoas, o sangue e o corpo, enquanto nós, o público, tal qual um ginecologista ou Gaspar Noé, analisamos tudo de uma posição, digamos, privilegiada.

Basicamente é um filme de dois atores, um diretor e o diabo no corpo: Ela, sempre pronta a se despir, ingênua e insegura, movendo-se na fronteira do clichê, quase como uma paródia de um filme de Rohmer. No contraponto, ele, Jérémie Renier, no papel de um sedutor, maduro e pedante, ferido na autoestima e sempre brincando com a psique alheia. No centro, o olhar de François Ozon para registrar essa terapia: A garota em busca de sua identidade, da paixão, dos espólios, catando os frangalhos dessa mistura e se misturando e se entrelaçando na coreografia cada vez mais intensa, cada vez mais intrigante, aparentemente improvisada, mas realmente precisa, entregue inteiramente ao instinto.

São masculino e feminino. Os corpos se roçando, violentamente se abraçando, repelindo, colidindo. E entrelaçados, ele e ela se movendo com fluidez, entre a dança e a aversão. Sempre se amando. Sempre lutando. O sexo poderoso, violentamente desproporcional, destrutivo. De início, surpreendente, e depois, cada vez mais comum diante de tanta paixão e ódio. De doce luta. Imagens picantes, diálogos carnudos, tudo nos deixa sem palavras. E eles debatem, ferozmente, em busca do outro, em busca de algo. Seja o entendimento, o equilíbrio de poder e não destruir, a possibilidade de amar, de se entender. E dessa doentia psicologia – hipnoticamente contraditória e visceral -, de um argumento absolutamente cerebral, gozado no ambiente físico, primordial, imediato, a tensão é evidente.

E todos absorvidos pelo jogo de cena, de corpo, sempre sensual e erótico. O diálogo acompanhando o tango na mesma pulsação, no mesmo dinamismo de réplicas, os torneios verbais que cede ao sussurro. E a cada frase, cada respiração, cada silêncio, sentimentos e sensações jorram na tela. É o orgasmo, literalmente. É a Palma, evidentemente

RATING: 80/100

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CANNES · MARCHÉ DU FILM

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