La Novia del Desierto

LA NOVIA DEL DESIERTO


O deserto é o vazio. Espaço e vastidão. Dureza e ressentimento. A expressão da perda e solidão, de tantos segredos e enigmas. O deserto é, também, Paulina Garcia. Seu rosto. Suas rugas. Seu olhar… E é por essa atriz, sua identidade, a profundidade abissal que define seu trabalho, que cruzamos esse deserto, o filme de Cecilia Atan & Valeria Pivato, a pequena história de Teresa, 54 anos de vida e todo um deserto para percorrer e nada a viver. Tudo o mais se foi. Se perdeu. É o fim. Também um começo.

LA NOVIA DEL DESIERTO é, portanto, um road-movie como tantos outros, uma viagem através do deserto como tantas outras, nada mais que a metáfora do desconforto, da turbulência, da insegurança repentina que, de alguma forma, na introspecção cria um furacão e da imperturbabilidade cria o eterno. O deserto é a separação. O ponto de ruptura. O antes e o depois. E Paulina está na fronteira, diante do destino, na estrada. Seu olhar no horizonte. O rosto ao vento. Ela, própria, o deserto.

E é neste lugar quase emblemático, diria o cinema, que vemos uma mulher que (se) perdeu e, com ela, a sacola com todas as suas coisas, pela tempestade, o deserto, o santuário, ao encontro de Gringo e seu caminhão, nessa “missão” de reencontrar o que se foi. E nessa busca – afinal pelo que? Por que? -, ao longo da jornada e as diversas reuniões, senão a paisagem de uma mulher silenciosa em seu cruzeiro existencial, ali, vemos, o deserto como metáfora do errático. Também o deserto da linguagem na boleia do caminhão, sem palavras, sem expressão, impenetrável, avassalador, aos poucos retomando as cores, o desejo, o espanto, a surpresa, a felicidade incompreensível, a dor ininteligível. Seu mistério permanece na capacidade de surpreender. E, sim, a mulher nos surpreende, essa atriz, nesse cenário, em suas míticas dimensões, em seus místicos horizontes, porque tudo o mais é poesia. E Paulina, pelo fiapo de texto, no minimalismo de sua interpretação, é quase nada e mesmo assim, tão “grande como o deserto, e tudo é deserto”, diria Fernando Pessoa.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Memento Films, incluindo a entrevista com as cineastas
RATING: 80/100

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CANNES · MARCHÉ DU FILM

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