Le Redoutable

LE REDOUTABLE


Ainda na fila de LE REDOUTABLE, em sua primeira sessão em Cannes, já havia um frenesi na imprensa e um tremor no ar… Toda a Sala Debussy foi evacuada, a sessão aparentemente cancelada. Havia cães farejadores, a polícia e uma mochila suspeita. Quase 30 minutos depois, afinal, não havia bomba na sessão de imprensa, literalmente na sala e no cinema. O filme de Michel Hazanavicius é uma biografia clássica de Godard, filmada no tom e nas cores dos anos 60, com diálogos cáusticos, divertidos, um texto muito ágil que brinca com vários clichês do cinema, a quarta parede, a narração em off, os nus frontais, muito jogo de palavras e uma interpretação inspirada de Louis Garrel. Não vale a Palma pelo qual compete, mas bomba certamente não é.

Tudo começa em 1967, com alegria e um toque de loucura: É ali, nas filmagens dA CHINESA, que surgem Jean Luc Godard e Anne Wiazemski, enquanto ao fundo, pelo rádio, se ouve a euforia de uma França com seu primeiro submarino nuclear, “Le Redoutable”. Com o tempo, vemos o jovem casal no famoso Quartier Latin, ele frustrado com a recepção do seu filme, ela em puro êxtase. Em fevereiro de 68, surgem outros cineastas franceses – Truffaut e Rivette – todos em defesa de Henri Langlois, demitido da direção da Cinemateca. O ano começa com força, sabemos. O filme de Hazanavicius, idem. Godard tem 37 anos, Wiazemski tem 20. E é através dos olhos dessa jovem, outrora perdidamente apaixonada por seu cineasta, que vemos o gênio, inclassificável, iconoclasta, símbolo de maio e seus eventos, as manifestações estudantis, as greves gerais, a interrupção do Festival de Cannes. Em paralelo, tingidos de admiração, sensualidade e sensibilidade, vemos o rescaldo caótico no casal, as diferenças, as divergências, todo o ciúme que surge aos poucos. Senão O DESPREZO, literalmente.

Tudo se passa em Paris, naturalmente, mas também em outros lugares. Na privacidade do tiroteio político, nos compromissos infindáveis, nas dúvidas que aos poucos cresce da relação doentia. Enquanto ao fundo, a tela incendeia com a nouvelle vague, o entourage temperamental, revolucionário, quase toxico de uma época de visionários, dOS SONHADORES, Hazanavicius filma tudo na intimidade, tateando seu casal com a câmera, captando seu protagonista no conforto do pequeno apartamento burguês, apenas em sua verborragia maoísta-marxista, sempre desdenhoso e mal-humorado. Retrata um Sol girando em torno de si. E não à toa, os óculos escuros, para não ofuscar. Não ser ofuscado.

“Um filme que não é sobre Godard, mas de um personagem chamado Godard, interpretado por um ator que nem é tão bom assim”, isso dito em cena, para nosso deleite. E isso Godard, queira ou não. Sobretudo Garrel e todos os adjetivos cabíveis que o trailer lhes cabe.

RATING: 73/100

TRAILER

Article Categories:
CANNES · MARCHÉ DU FILM

Deixe uma resposta