Sem Fôlego

WONDERSTRUCK


Não há palavras para descrever WONDERSTRUCK. Então, Todd Haynes não as usa. Seu filme é música, gestos, sinais, um verdadeiro fluxo de imagens delicadamente curadas num excêntrico gabinete de maravilhas. É também cinema, exatamente como se fazia nos primórdios dos tempos, nos rudimentos dos irmãos Lumière, de Murnau, de Carl Theodor Dreyer ou tantos outros, porque cria um mundo paralelo, oscila entre a realidade e a ficção e tudo em um argumento convincente que evoca a nostalgia clássica de uma Hollywood esquecida.

Ao centro, admiramos uma estrela, sua luz, seus encantos. Não nós cansamos de contemplá-la, como se fossemos um curioso visitante de um museu distante. Juliane Moore nos deixa afônicos, surdos a qualquer ruído externo. Ela nos fascina em cada recorte ou frame, enquanto as crianças, senão as protagonistas, nos guiam pela história, tantos gêneros e cores e filtros, aos sussurros e suspiros. E o fazem pelo onírico, o mais delicado, entre o passado e o presente, um garoto e uma garota, pelas notas de um compositor que nos remete ÀS HORAS. Um filme que atravessa a história natural (do cinema), um meteoro que provoca ENCONTROS IMEDIATOS (DE TERCEIRO GRAU?), mas que, sobretudo, é fantástico por seu jogo entre o público e a tela, essa curiosidade (e)terna que lembra as mesmas sensações dA INVENÇÃO DE HUGO CABRET, por tal nostalgia, por tal homenagem, pela ODISSEIA NO ESPAÇO, no tempo, ou mesmo A HISTÓRIA SEM FIM de um cineasta que não nos cansa de surpreender.

E não à toa. O cineasta adapta Brian Selznick, primo de David O. Selznick, um dos maiores produtores da história do cinema, vencedor do Oscar por E O VENTO LEVOU e REBECCA, o mesmo escritor de Hugo (que Scorsese adaptou) e, agora, nos deixa SEM FOLEGO, sem lagrimas por esse romance que combina imagens com palavras, nessa Ode à imagem em movimento.

Pelo elenco, por tal ilusão, o filme já seria inquestionável, inesquecível, mas vai além… O jogo de esconde-esconde no museu, toda a sua composição e montagem, a poesia lúdica que só cresce às teclas do piano, é de uma genialidade deslumbrante. A cena de Julianne Moore na tempestade, sim, é de Todd Haynes, mas poderia ser de Béla Tarr (O CAVALO DE TURIM). E depois, um flash na noite, um horror expressionista: No canto escuro, duas mãos lentamente emergem no que parece ser um abismo, para agarrar a menina desatenta. É de Todd Haynes, mas poderia ser de Fritz Lang (M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF). E são apenas algumas cenas de tantas outras, de tantos momentos, de 2 horas de projeção. Que parece mágica e talvez o seja: Algo semelhante ao alarde que Méliès causou em sua geração.

RATING: 81/100

TRAILER

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CANNES · REVIEW · SAN SEBASTIAN

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