Loveless

NELYUBOV


Antes, havia um casal. Não existe mais. Outrora, havia um país. Não existe mais. Restou apenas o silêncio do vento, do vazio das almas. As árvores enterradas na neve, nesse frio cortante. Tudo está aparentemente morto. Na tela, vemos apenas as relíquias de outros tempos, os destroços dos seres vivos, os resquícios de alguma felicidade, isso se realmente houve alguma alegria. Estamos na Rússia, num filme de Andrey Zvyagintsev, no apartamento de Boris e Zhenya. Não há amor aqui. Eles estão se divorciando, brigando, sofrendo. Estão sós, contemplando o nada, sua existência, o entulho de suas vidas, esse lugar cheio de coisas, de moveis, de memorias. O amor se foi, está perdido em algum canto. Talvez em outro lugar, com outras pessoas, num celular ou na rede social. Há também um filho, Alyosha, 12 anos de idade. Ninguém o percebe. Ninguém se importa. Sem amor, melhor sumir…

E é dessa família, das sombras, de todo o ressentimento e recriminações, que Zvyagintsev filma e retrata seu mundo – impiedosamente -, donde todos são intrusos ou estrangeiros. São, senão, seres miseráveis, donde não existe heróis ou vilões. Apenas confusão, reticências, uma imagem deslumbrante, um ambiente sufocante e uma visão sombria do mundo. É, também, a Rússia pictórica de Tarkovski, Eisenstein e Vertov. É o gigantesco LEVIATÃ, frio, impune e avassalador que, de alguma forma, se perdeu no tempo. Como um adolescente. Sem limite. Sem amor.

São monstros? O cineasta não julga. Filma apenas em longos travellings sua história: A busca incessante de alguém, de algo, de felicidade? O que seria? E ao fazê-lo, evoca Ingmar Bergman (CENAS DE UM CASAMENTO), Asghar Farhadi (À PROCURA DE ELLY) e Nuri Bilge Ceylan (ERA UMA VEZ EM ANATOLIA), mas transplantando cada filme para seu cinema, para uma era diferente e agido por diferentes personagens, seres urbanos, inócuos, desprovidos de qualquer consciência, sentimento ou dúvida. Movidos apenas pelo instinto, seus hormônios. Pessoas doentes, apáticas, um pai, uma mãe, um acidente. E é tal fardo que cada um joga vingativamente no rosto do outro, enquanto, o próprio, chora no banheiro, na cama, desaparecendo aos poucos. Até sumir por completo. A cena, no entanto, fica na memória, em nossos corações. Para sempre. Com amor.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Pyramide Distribution, incluindo notas de produção
RATING: 85/100

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CANNES · MARCHÉ DU FILM

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