Crônica da Demolição

CRÔNICA DA DEMOLIÇÃO


“Construir, destruir, decidir. Eis o livre arbítrio. A cidade se acumula.”


Em princípio, o que se vê é a sinfonia da metrópole, seus lugares ermos, desérticos, insólitos, as colunas de concreto, os veículos de metal, um grande épico ao cimento que nos toma de assalto em vigas e vagas. Esse é o triste conto, senão a CRONICA DA DEMOLIÇÃO: Ao fundo enquanto a música nos envolve, alguém conta sua história, de como arrematou o acervo do Senado Federal por uma ninharia, seus leões, os anjos, as estatuas imortais, imemoriais. Era necessário porque o palácio se foi e com ele seu mundo. Hoje é o nada. Uma praça de concreto cercada por grades e muretas.

Então, voltemos ao passado, ao que fora o Palácio Monroe, a pérola dos pavilhões estrangeiros, senão o diadema da Feira Mundial de Sant Louis. Um grande monumento erigido em gloria e esplendor e trazido para o Rio de Janeiro, isso em 1904. Deveria ser um monumento. Também um palácio. E para que servia? Ninguém sabia ao certo, mas se tornou um salão de festas, convenção ou algo similar. Os jardins públicos tinham iluminação elétrica. O prédio era o ponto focal da Avenida Central, o passeio público ficava aos seus pés, o pão de açúcar ao fundo. Era a redenção do colonialismo português. O que havia de mais moderno, ali na Rio Branco, a principal artéria da cidade, seu orgulho e lugar preferido e abraçada pelo teatro Municipal e a Cinelândia, outras vedetes desse cenário. Por tudo, era um edifício marcadamente da Republica. Ao que representava, não à toa se tornou o Senado Federal até as cúpulas de Niemeyer ganharem os céus de Brasília.

Tal documentário nos seduz: É uma visita ao museu, ao que foi o Rio, esse Brasil, idos anos 30, 40, 50 e assim até a ditadura. Um retrato de como a cidade cresce e vertiginosamente, estrangulada entre a praia e os morros. Como frear esse crescimento? Esse espirito “belle époque”? Tudo começou por Pereira Passos que trabalhou na França e aqui, teve plenos poderes para intervir e demolir, milhares de casinhas em prol do futuro, quase 70 edifícios. O Rio se tornaria um canteiro de obras e cuja arquitetura é apenas um documento. Através dela, se registrou uma história, anos e anos de pedra estratificadas. E através dos anos, a cidade se tornou um canyon de prédios, similar ao modelo vindo de Nova York, enchendo as lagoas e os pântanos em busca de terra firme, qualquer terreno que não fosse morro ou água salgada. Essa foi a façanha dessa cidade, sua conquista. O palácio Monroe ao fundo logo se tornou um trambolhão.

Depois veio Corbusier e sua arquitetura de pedra e vidro: Maldito em sua terra, logo se tornou divindade no Brasil entre os seus e pelas ideias de morada. O palácio treme, logo se torna um bastardo no caminho das artes, sem sentido, sem passado ou futuro. Ali, no meio do nada, é um monstro, um zumbi arquitetônico. Havia estudos para derrubá-lo e colocar no lugar um imenso picolé de pedra. Um marco que separaria a memória da modernidade, o bem do mal. E com a mudança do Senado, como ocupá-lo? Outro problema…

A cidade é um pasto de negócios financeiros e políticos, os carros viriam com a especulação, senhores da rua e dessa destruição. Vários prédios caíram para o vazio, tantos outros, uma lista imensa da memória, hoje, destruídos, meros espaços vazios, estacionamentos. Chegamos em 1975. E com ele, o trator. Cai os prédios do Derby Club e Jockey Club. O Metro chega avassalador. O carioca exulta com esse milagre econômico, e isso no terreno mais valioso, diante do qual o Monroe finca os pés como um tesouro e um trambolho. Decidiu-se por demoli-lo. Quem? Ninguém sabe. A ditadura venceu. E com ela a especulação. Mas o que veio foi o choque de memória. E um belo documentário.

RATING: 82/100

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FILMES · MOSTRA SP · RIO

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