Silêncio

SILENCE

Na tela, alguns homens surgem de uma espessa nuvem de névoa que se ergue de um lago fumegante. Parecem fantasmas pálidos diante de um caldeirão. Ali, aterrorizados, ouvimos ao fundo alguém. Outrora forte, resoluto, hoje, está perdido: É a voz de Liam Neeson, o padre jesuíta, o missionário dissuadido. Seu olhar não corresponde ao tom reflexivo da voz que ouvimos em off. Ele está perturbado com o que vê. Ele se vira, mas dois guardas o seguram, o obrigam a seguir em frente. Os vapores confundem realidade com sonho, fé com martírio, toda a perseguição, a repressão, o dilema… Então, SILÊNCIO.

E é nesse inferno que Martin Scorsese constrói seu épico feudal: No Japão de antigamente, na clausura do período Edo, no embate de homens de fé, diante dos mistérios da fé, por seus tortuosos caminhos, singrando o silêncio, o corpo debilitado, o rosto cortado, o orgulho ferido, amarrado na cruz, a mercê da cruz, enquanto a maré sobe e desce por dias e a multidão emudecida, reunida pelo divino, espera pelo sinal e se submete aos maiores infortúnios. Esse é o retrato (de uma exótica cultura). A missão. Senão, a reflexão.

Um trabalho de fé. De um diretor, particularmente. Por todos esses anos de ruminação e meditação, pela arte de contar histórias e filmá-las, assim como se prega a doutrina do antigo cinema, idos anos 50, 60, filmados em cenários reais, elencos gigantescos, em ambição e impulso. Dessa devoção, dita um filme repleto de simbolismos e questionamentos, de crenças e visões do mundo. A busca de um sentido, de algo onipresente, espiritual, meio vago, mesmo que seja no outro ou ao menos no resquício de humanidade.

No silêncio, no sussurro e no sofrimento, dessa peregrinação, meio lenta, meio calma, como qualquer jornada em busca da verdade, vemos um cineasta no controle do seu oficio, os atores em pleno regozijo de seus papéis, a trilha seguindo o evangelho, cada rito, cada sensação, o vento suave, os ecos incessantes, os sussurros no escuro, o canto das cigarras em sua cabeça. E na retina, esse incômodo silêncio, quase uma prece rumo à iluminação ou à condenação. Ame ou deixe, isso cabe ao livre-arbítrio de cada um.

Se Deus tivesse estado em silêncio minha vida inteira.
Foi no silêncio que escutei tua voz.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Paramount Pictures, incluso trechos do roteiro
RATING: 87/100

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Comments

  • Assisti a “Silêncio” ontem. Que filme poderoso, que personagens maravilhosos, que mensagem linda! Não entendo como esse filme foi solenemente ignorado no Oscar 2017.

    Cinéfila por Natureza 14 de março de 2017 20:34 Responder

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