Sieranevada

SIERANEVADA


“O diabo é um contador”


Ao retornar à Bucareste, três dias depois do atentado ao Charlie Hebdo e quarenta dias depois da morte de seu pai, um médico retorna à casa da família para a comemoração do defunto. No apartamento de sua mãe, os convidados aguardam o padre chegar enquanto discutem sobre todos os tipos de assuntos conectados e desconectados com os eventos e as guerras do mundo. E assim, na sala de estar se discute a Romênia, sua essência, seus temores, a política, a religião, talvez (A MORTE DO) SR. LAZARESCU, ou a AURORA de um pais pós-comunista. E tudo – e principalmente – ao redor desse protagonista-puzzle aparentemente insondável que se recompõe nessa sufocante teia familiar e social.

E assim, Cristi Puiu filma com a câmera estática, enquanto na tela, as pessoas entram, saem, a porta se abre, se fecha, o campo de visão indo e voltando num eterno ping-pong que traça um panorama claustrofóbico, muitos personagens, a própria lembrança do diretor. Um debate, literalmente. E também as memorias, os fatos, eis o coração dessa história: Do falecido pai. Da falecida sociedade. Dessa Romênia que se foi e, agora, é exposta numa forma muita acentuada. Essa é a verdade, ou ao menos a verdade do cineasta: Os fatos, a comunidade, a estrutura e todas as suas questões de poder.

Um discurso que também pode evocar os grandes eventos históricos, como o 11 de Setembro, por exemplo. Um pedaço de história que se foi e logo cede espaço para outra. Esse é o estopim, a conexão da conversa. A discussão se torna acalorada, se volta para as prisões comunistas. Voltamos a Romênia, aos contos de fada, às verdades imutáveis, a história do homem que se move sem fim, durante todo o tempo, o tempo todo. E são quase 3 horas de projeção, de aproximações e total confusão. O padre chega. Traz a fé. A roda viva gira novamente. Não tem fim.

E enquanto isso, de discussão ou maldição, todos querem comer e não podem. Como nO DISCRETO CHARME DA BURGUESIA de Buñuel, ali, em volta da mesa, da fartura, da falsa sensação de solidariedade, o filme se torna cada vez mais urgente e mais faminto. E a metáfora mais intensa. Confinados no apartamento, O ANJO é EXTERMINADOR. O DEUS é DA CARNIFICINA. Uma amostra do mundo, do dia ou da noite, do que é mais obscuro e mais leve, diferentes decorações e paisagens e, claro, o outro. O encontro com esse Outro, cada um em sua própria “Serra Nevada”, cada sala um mundo próprio, os próprios smartphones como um portal para cada mundo. E isso diz tudo.

Nesse concerto de portas que se abrem e se fecham, vemos um filme extremamente longo e donde não se encontra nenhuma cena para cortar. Cada frame ali é essencial. Cada bater de porta que, sim, travam, impedem, mas também lhe convida para um novo ambiente e discussão. O público toma parte ou não. Entra ou não. Tudo leva seu devido tempo, como a morte, a vida, as pessoas, indo e vindo, respirando, sorrindo, sofrendo. No final, tudo se resolve. Há frango e polenta para todos (Ou não).

RATING: 85/100

TRAILER

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CANNES · FILMES · RIO · SAN SEBASTIAN

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