Interruption

INTERRUPTION


Eis a inspiração, senão a tragédia: Em 2002, cinquenta radicais chechenos tomaram como refém, cerca de 850 espectadores do Teatro Dubrovka, em Moscou. E pelos quais, o público, cativado pela ambivalência do momento, achou que tal abordagem fosse parte do jogo de cena. Um momento donde ficção e realidade, verdade e mentira, lógica e absurdo, afinal, se (con)fundiram. E é dessa ambiguidade. Do som e da fúria que tomam o palco, donde tudo é possível, mesmo o mais surreal, que Yorgos Zois nos apresenta seu teatro filmado, uma adaptação pós-moderna da Oresteia de Ésquilo, berço do teatro grego, também desse filme em três atos.

Ao fundo, um enredo de vingança e assassinatos, a história de Orestes, atormentado pelas “Fúrias”, as divindades que vieram vingar a injustiça, senão o matricídio instigado por sua irmã Electra. Ele que matou a mãe, Clitemnestra, que havia matado seu pai, o rei Agamenon, que havia sacrificado sua filha, Ifigênia, para que sua frota pudesse zarpar para Troia. O herói que encontra refúgio no templo de Apolo, incapaz de livrá-lo da ira implacável dessas bruxas, mas ao menos adormecidas por ele, enquanto Orestes foge e o fantasma da mãe passeia pelos sonhos “exatamente como ou de onde é incerto”, mas ali, na tela, em pleno cinema, para despertá-las, e com elas, o público, para o julgamento final, sim, o primeiro da humanidade. E por esse fim, vemos a catarse de homens, estranhos e atores, diante das palmas desvairadas ou da indiferença silenciosa. Um tiro e o juízo final. O corpo desnudo, a alma purificada, a chuva e sua sentença. Culpados? Inocentes? O público vota e assim se decide. Eis a arte, afinal.

Um lugar de improvisação, interrupção ou escolhas difíceis. Donde os atores são aprisionados no cubo mágico e o público, sim, interage, escolhe, surpreende nessa tragédia. Cada um, Deus ex-machina em suas atitudes inesperadas, improváveis ou mirabolantes. Afinal o júri diante da crueldade, do livre pensamento e, claro, desse filme-teatro donde a vida imita a arte e não o contrário.

RATING: 73/100

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