Fukushima, Mon Amour

GRÜSSE AUS FUKUSHIMA


“Estar ausente é como viver com fantasmas”


“Quando cheguei em casa, não havia mais nada. O que você faria se isso acontecesse? Os cadáveres espalhados por toda parte? As roupas e os livros, as fotos e os móveis… Se tudo não estivesse mais lá? Se o seu mundo deixasse completamente de existir? Se você tivesse perdido tudo? O que você faria?”

E por tais questões Doris Dörrie medita a vida, os medos, a alegria. E o faz em Fukushima, aos olhos de uma jovem que fugiu dos seus sonhos, superou a perda de um grande amor para, enfim, se encontrar nessa cidade, à margem do desastre de 2011 e, lá, tornar os tempos difíceis mais fáceis, nem todos, nem para todos, porque uma Gueixa restou nas ruínas e ali ficará sem sorrir. Duas mulheres presas no passado, nos fantasmas, nessa farsa. Mon Amour. Votre Amour. “Mãe e filha”.

E com saudações de Fukushima, voltamos à HANAMI – FLORES DE CEREJEIRA, nessa exótica harmonia entre as escolas alemã e japonesa, entre Dörrie e Ozu, tradição e modernidade, afinal na poética universal, tantas (pequenas) historias sobre a vida, suas idas e vindas, entre Rosalie Thomass e Kaori Momoi, ambas enaltecidas por esse cinema, preto no branco, cheio de magia e palhaçadas, e completamente sem fronteiras porque assim os palhaços vivem.

E aos poucos reconstruir, caquinho por caquinho, um novo lar: Se livrar dos moveis quebrados, reparar as paredes, tornar cada espaço mais aconchegante. E varrer essa poeira, indo e vindo, gradualmente, gerações, segredos, o alimento delicadamente cozinhado e servido, enquanto aos poucos vai se polvilhando os ombros com sal (para ajudar contra os fantasmas, dizem). Essa é, afinal, a canção triste que Dörrie nos canta, sua câmera como um velho shamisen evocando essa música milenar donde cada pedra é uma lembrança, cada lembrança é algo doloroso. E tudo é melancólico e nos atordoa nesse cinema como outrora sentimos com Ozu. (Não à toa a cena que evoca ERA UMA VEZ EM TÓQUIO).

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Majestic Filmverleih, incluso a entrevista com Doris Dörrie
RATING: 65/100

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BERLIM · MOSTRA SP · REVIEW

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