Boris sem Béatrice

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“Tão perto e, ainda assim, tão longe”


Boris tem tudo na vida. Ele é obstinado, independente e orgulhoso, e seu sucesso acompanha certa arrogância. Um personagem forte, que sabe o preço e o valor do trabalho árduo, que não é dado ao fracasso de qualquer tipo, seja social, emocional ou financeiro. Um homem que se congratula com os dons da vida, com a sua palavra, com a árvore do conhecimento que plantou, um status, diria, de ostentação. Há somente um detalhe… BORIS SEM BEATRICE. E o resto se torna uma ruína.

Poderia ser Quebec, a cidade pelo qual todos se acotovelam em busca do lugar mais alto, ansiosos de empreendedorismo, além de suas forças, fraquezas, profundezas ou remorsos, mas não o é. A ruína está em Boris e tais fissuras, outrora adormecidas, ecoam por todo o filme porque não dependem do sucesso, das virtudes, de qualquer posição, mas de apenas, e somente, uma pergunta: Eu sou uma boa pessoa? E por quais olhos?

E esse é o enigma que Denis Côté nos propõe: Um estudo de personagem, estilhaçado, decomposto e cujos cacos se constrói um quebra-cabeças, meio abstrato, meio vago, talvez uma viagem distorcida, um labirinto obscuro, senão um mundo de cobras e escadas que opõe controle e anarquia, ação e reação, ali para prosperar ou restringir nossa percepção. Essa é a dúvida. O tribunal. A consciência. Falta Beatrice.

Mas Beatrice não é o foco. Ela é o dano colateral, o mistério, a falta de diálogo, ali inerte, sem realizações, personalidades, objetivos. Seu passado não interessa, tão pouco seu futuro. Sim, ela é importante para Boris. Ele a ama. Certamente a amou, mas hoje não é nada. Sua presença está em aberto. Inerte. O estranho bate à porta. As engrenagens giram. As mulheres orbitam em torno do protagonista, aos poucos cada vez mais enfraquecido. E essa é a (grande) ironia: Quem ali está realmente doente? Esse o Suplício de Tântalo: Um homem condenado ao paraíso, sem dele ao certo usufruir, porque alguém esteve à porta e dela questionou. Vale a pena? O filme talvez sim.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Films Boutique, incluindo a entrevista com Denis Côté
RATING: 65/100

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BERLIM · REVIEW · RIO

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