Fogo no Mar

FUOCOAMMARE


O cenário é extremamente bucólico. A cidade é provinciana. Um lugar donde os garotos brincam, os homens trabalham, as velhas cozinham e a (única) rádio da cidade toca velhos clássicos. E isso seria Lampedusa, a distante ilha pelo qual circunda o vento e o mar, os rochedos e as ondas. E também algum clamor lá das águas impetuosas, revoltosas, o sol a pino, o vai e vem insalubre, onda por onda, indo e vindo, lá de longe, de terras distantes, de guerras infinitas, das misérias atrozes. Da Somália, da Eritreia, do Chade, dezenas, centenas, milhares, um emaranhado de vozes, a esmo, a deriva, nesse mar encruzilhado, nesse fogo cruzado. FUOCOAMMARE.

Então, Gianfranco Rosi filma cada morador e historia desse lugar, pequenos recortes de uma vida, de um tema, desses ilhéus, um médico em suas experiências humanitárias, um radialista perdido em suas varias canções, a graça de um filho de pescador… E por esse menino, seus olhos ingênuos, seus amigos, sua escola, em casa com sua avó, no barco com seu tio, ali vemos outra ilha, algo além das manchetes da mídia, algo além da verdadeira inundação de emigrantes. Apenas o habito de um vilarejo. Como qualquer outro.

E também essa sensação de emergência que norteia o ambiente, pois cada dia há uma emergência. Todos os dias algo acontece. Um barco, uma tragédia, a câmera ali em curso, muito perto, dia após dia, e assim durante vinte anos. Meros fantasmas, ora resgatados, ora descarregados em algum cais para assistência e identificação. Sombras do que foram, lágrimas pelo que serão. E assim, o cineasta filma de perto sua missão e seu filme, seus ritmos e regras, seus convidados e costumes, suas religiões e tragédias. Um mundo dentro de um mundo, literalmente e idealmente. E cada recorte com sua própria lógica e movimentos internos. Como um relógio. Ou a maré que traz consigo dores e esperanças.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela DOC & Film International, incluso a entrevista de Gianfranco Rosi
RATING: 67/100

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BERLIM · FILMES

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