Boi Neon

BOI NEON


No bumba-meu-boi de um Brasil tão brasileiro, cheio de maracatu, maculelê e marujada, Gabriel Mascaro nos coloca na estrada, ao lado de Juliano Cazarré e seus bois, para ali viver um rodeio nos confins do Nordeste. E nessa Vaquejada de CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS, o caminhão amarfanhado de gente e improviso, de Galega e Cacá, de Negão e Zé (Ninguém?), e cuja vida se leva, como todos os touros pelos chifres (ou rabo?), tudo tão intenso e visceral, até se deitar a cabeça na rede e os sonhos nas lantejoulas, os dedos nos tecidos, os croquis no tec tec tec da máquina que se costura, eis um filme extremamente rico, sensível e sensual, nada mais que os (bons) VENTOS DE AGOSTO que sopram esse cineasta para longe, à Veneza, à Toronto.

Sim, “tu precisas ir pro Norte ver Bumba meu Boi Bumbá”, esse BOI NEON de festejos e folguedos, cores e realengos, afinal um estudo sobre o corpo, a luz e a transformação da paisagem humana, também de um país donde “vale tudo” e que muda rapidamente, econômica e politicamente, ao pandeiro de seus desejos e aspirações, cores e tons, esse povo colorido e sua criatividade lá do antigo “reisado imperiá”.

E ali no Nordeste, que o “Cinema Novo” desertificou, esfomeou e secou, mas agora na “Retomada” é nada mais que uma (rica) alegoria de classes e levantes camponeses. Ao centro, O SOM AO REDOR donde se choca dois mundos, mas ali no interior, o caos donde orbitam a tradição e o modernismo. E nessa toada, seja animal ou ser humano, homem ou mulher, a vaquejada em si, cujo esporte se respeita uma hierarquia, do boi ao pastor, do pastor ao operário, do operário ao proprietário, um segurando o rabo do outro para, por fim, levar o boi ao chão, o mesmo movimento por horas e horas, quase um ritual, uma coreografia recorrente. Assim é, dia após dia, como o trabalho de uma tecelagem, do molde a costura, da costura a fábrica, da fábrica ao proprietário, centenas de trabalhadores em suas maquinas, cada costura uma nova fronteira, sensação, erupção. Sim, a mesma violência e prazer habitando o mesmo corpo. O mesmo personagem.

E é sobre esse tecido humano que se alastra pela paisagem, muitas vezes turbulenta, tão comum quanto surreal, que Mascaro cuidadosamente costura seu filme. Sua câmera muito sutil, firme, movendo-se lentamente em novas experimentações, mapeando a rotina diária, também nossa retina por essa coreografia da vida, esse forrobodó do Sol a Sol que, sob as cores desse “boi neon” é, sim, pura poesia.

RATING: 75/100

TRAILER

Article Categories:
FILMES · MOSTRA SP · RIO · TIFF · VENEZA

Comments

  • Que felicidade ver o cinema brasileiro recebendo um reconhecimento tão forte neste ano! Que venham mais filmes como esse e “Que Horas Ela Volta?”.

    Kamila Azevedo 6 de setembro de 2015 22:00 Responder

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