As 1001 Noites


“Contos Maldito! Se as coisas continuarem desta forma, a minha filha vai certamente acabar com a garganta cortada!”


Muita ambição permeia AS 1001 NOITES, de Miguel Gomes, um pot-pourri de anedotas sobre Portugal de hoje, a ladainha sobre a crise particularmente, que nos deixa inquietos, desolados, encantados. Aqui, uma voz onipresente – a do diretor, a de Scheherazade – nos guia por essas histórias, contada como antes se contavam as histórias, quando o cinema mudo era cinema e a verdadeira arte dos atores era simples interpretação e expressão. Gomes não exagera, não confunde. Propõe sua realidade dentro da ficção e com esse “realismo mágico” emoldura seu país, a miséria, o mundo, e pela noite afora, entretém seu verdadeiro rei, o público.

O INQUIETO

No primeiro filme, se narra a inquietação de Portugal: “Ela me atingiu, ó auspicioso rei, nesse país triste entre todos os países, onde as pessoas sonham com sereias e baleias e o desemprego está se espalhando. Em certos lugares, as florestas queimam na noite apesar da chuva que cai; homens e mulheres desejam partir para o mar no meio do inverno. Às vezes, há animais que falam, embora seja altamente improvável que sejam ouvidos. Neste país, onde as coisas não são o que aparentam, os homens de poder passeiam em camelos e escondem suas ereções vergonhosas; Eles aguardam o momento oportuno, donde os impostos são recolhidos para que possam pagar certo bruxo que…” E vendo o intervalo da manhã, Scheherazade fica em silêncio. O filme se encerra.

O DESOLADO

No segundo filme, se narra a desolação invadida pelos homens: “Ela me tem, ó auspicioso rei, quando um juiz afligido vai chorar, ao invés de proferir sua sentença em uma noite quando todas as três luas estão alinhadas. Um assassino em fuga vagueia pela terra há mais de 40 dias e vai tele transportar-se para escapar da polícia enquanto sonha com prostitutas e perdizes. Uma vaca ferida irá falar com uma oliveira de mil anos de idade, ao dizer o que ela deve dizer, que soará nada menos do que triste! Os moradores de um prédio no subúrbio vão economizar papagaios e mijar dentro de elevadores enquanto cercado por mortos e fantasmas; inclusive no fato de um cão que …” E vendo o intervalo da manhã, Scheherazade fica em silêncio. O filme se encerra.

O ENCANTADO

No terceiro filme, se narra por fim o encantamento deste cinema. Scheherazade duvida que seja capaz de contar histórias para agradar o rei, tendo em conta que o que ela tem a dizer pesa três mil toneladas. Ela, portanto, escapa do palácio e percorre o reino em busca de prazer e encantamento. Seu pai, o Grão-Vizir, organiza um encontro na roda-gigante para que ela, finalmente retome sua narração: “Ó auspicioso rei, em antigas favelas de Lisboa havia uma comunidade de homens enfeitiçados que, com toda a dedicação e paixão, se dedicaram para ensinar os pássaros a cantar…” E vendo o intervalo da manhã, Scheherazade ficou em silêncio.

A MORAL

Eis a moral do conto dos contos: “Ó auspicioso leitor: Miguel Gomes funde seu panfleto social com antigas lendas e nos entretém por mais de 1001 noites, 6 horas e 3 filmes. Sim, uma fábula, mas também documentário, senão uma visão antropológica de um país em crise nesses contos, crônicas e historias maravilhosas. Miguel filma esse mundo, o encenando como um antigo teatro, os atores se confundindo com a realidade, em mil línguas, em mil figurinos, animais e árvores falantes como inspiração, a politica e a denuncia ao fundo, a livre adaptação, a simples inspiração. A sensação, tal qual o livro que o inspirou, é a de (puro) fascínio. E o melhor de tudo é…” E vendo o intervalo da manhã, o critico fica em silêncio.

AS MIL E UMA NOITES VOL.1: O INQUIETO – RATING: 72/100
AS MIL E UMA NOITES VOL.2: O DESOLADO – RATING: 76/100
AS MIL E UMA NOITES VOL.3: O ENCANTADO – RATING: 74/100

TRAILER

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FILMES · CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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