Madame Courage

MADAME COURAGE

Poderia ser NA CIDADE DE SYLVIA, na romântica Paris, com um jovem, seu “fantasma feminino” e um desejo, mas logo percebemos que não se trata do filme de José Luis Guerín, tão pouco um romance ou conto de fadas. Aqui, a realidade é bem diferente: Estamos na Argélia, nos subúrbios de Mostaganem, o jovem é um adolescente instável e solitário, vive na favela, das drogas e pequenos furtos, no Ecstasy, em êxtase, na pseudo-euforia. Sua “Sylvia” é também sua vítima, alguém distraído com as amigas e um sorvete, a câmera trêmula os persegue, ninguém mais o faz ou se importa. Então o crime é cometido. E por um relance, se trocam olhares. Tudo repentino, agitado. É o suficiente.

Ao redor, a cidade se embebe no caos. Nada importa. Nem a pedra de MADAME COURAGE cuidadosamente guardada num saco amarrotado no bolso. Na penumbra, se lembra. Também se sonha. E daí uma pequena odisseia em busca dessa “Sylvia”, sem qualquer rumo ou perspectiva além do vício, pelo chão de terra, as paredes de lata, os prédios de tijolo cru, apenas infortúnio e miséria e as preces de Allah ao fundo.

Como sempre, o cineasta Merzak Allouache mantém um olhar crítico e intransigente sobre a sociedade argelina, e através da história desse jovem, um adolescente alienado e enamorado, outra mosca na miséria social e psicológica que experimentam milhares de jovens marginalizados, ou senão um terreno fértil para a violência, a corrupção, os flagelos do islamismo radical. E o faz com encenação escassa, não atores, realismo simples… filma uma cidade marginal e suas cicatrizes. Nada mais.

O resto é o impacto de uma droga, essa “Madame Courage” que torna tudo invencível, mas ao final seca qualquer esperança, mesma a mais remota, mesmo aquela correspondida e que não se vê porque a mente está enuviada de terrores e remorsos. Sim, é horrível, mas estamos na cidade de Allouache e, aqui, é assim que se vive, não em romance, nem em sonhos. Isso cabe à Europa, afinal à cidade de Sylvia, que Guerín filmou e nos encantou.

RATING: 68/100

Article Categories:
REVIEW · VENEZA

Deixe uma resposta