Fritz Lang: O Horror está no Horizonte

METROPOLIS


O Centro Cultural Banco do Brasil promove a partir de Julho, uma retrospectiva completa da filmografia de Fritz Lang, tudo em 35mm e praticamente todos os títulos feitos entre 1919 e 1960. A mostra apresentará as diversas fases da carreira de Lang, desde seu início no cinema silencioso alemão, com filmes como METRÓPOLIS e OS NIBELUNGOS, passando ao cinema sonoro com M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF, seus anos em Hollywood (com clássicos como FÚRIA, OS CORRUPTOS e ALMAS PERVERSAS) e o retorno à Alemanha no final dos anos 1950, quando realiza sua obra derradeira, OS MIL OLHOS DO DR. MABUSE. O público terá também a oportunidade de assistir em película a obras bastante raras e menos conhecidas do cineasta, como HOUSE BY THE RIVER (1950), A GARDÊNIA AZUL (1953) e O TESOURO DO BARBA RUBRA (1956).

Nascido em 1890, em Viena, Lang começou sua carreira no cinema silencioso alemão em 1919, na época do Expressionismo, junto a diretores como F.W. Murnau e Robert Wiene, diretor de O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919). Sabe-se que dois filmes dirigidos Lang deste primeiro período encontram-se hoje perdidos, sendo AS ARANHAS (1919) o primeiro filme de sua autoria hoje disponível. Dessa primeira fase de sua carreira, ainda durante o cinema silencioso, destacam-se filmes como A MORTE CANSADA (1921), com seu visual expressionista, OS NIBELUNGOS (1924) e principalmente METRÓPOLIS (1927), épico futurista de grande esmero visual e arquitetônico.

Apesar de bem-sucedido durante a década de 1920, a carreira alemã de Lang não será tão promissora quanto parece. Em 1933, com a ascensão do nazismo, sua situação é desanimadora: seu filme O TESTAMENTO DO DR. MABUSE é censurado por Goebbels e sua mulher, Thea von Harbou, com quem havia escrito grande parte dos seus filmes até então, se converte ao nazismo. Lang então se divorcia e se exila, indo parar na França, onde realiza CORAÇÃO VADIO (1934), filme perfeitamente coerente com o “realismo poético francês”, em voga naquela país através de diretores como René Clair.

Seu nomadismo só termina ao chegar em Hollywood, onde ficará durante mais de vinte anos. Este período inicialmente foi visto pela crítica da época como “convencional”, como se o cineasta tivesse “se vendido”. É verdade que Lang teve de se adequar ao ritmo de produção hollywoodiano, passando por diversos gêneros (faroeste, guerra, romance), que não eram os seus preferidos. No entanto, como mais tarde soube reconhecer a crítica francesa, Lang jamais deixou de ser um “autor”, sempre imprimindo a sua visão pessoal de mundo nos filmes.


Durante a fase americana, Lang manteve predileção por um gênero em especial: o filme noir. Produto das intrigas policiais da década de 1940, o noir é caracterizado por protagonistas anti-heróis e um contexto de submundo e degradação humana. Essa fidelidade de Lang, notável em filmes como RETRATO DE MULHER (1944), ALMAS PERVERSAS (1945) ou GARDÊNIA AZUL (1953), não veio por acaso: relaciona-se diretamente ao mesmo diretor de M – O Vampiro de Düsseldorf, no qual a noite e a penumbra guardavam a manifestação de estados menos “apresentáveis” do homem. O linchamento público (M, FÚRIA), a pena de morte (VIVE-SE UMA SÓ VEZ, SUPLÍCIO DE UMA ALMA), as sociedades secretas (OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM, QUANDO DESCERAM AS TREVAS) são alguns de seus temas, caracterizados por preferências por ambientes internos (tribunais, prisões, a própria noite como uma atmosfera fechada e pouco acolhedora) e por personagens que não se subordinam a Deus ou à moral. Segundo o diretor, ao recitar um poema de Hölderlin em O DESPREZO, de Jean-Luc Godard, “é a ausência de Deus, e não sua presença, que agrada ao homem”.

Lang é frequentemente comparado a Hitchcock, o que é oportuno para compreender sua visão de mundo. Enquanto para o inglês normalmente o homem é culpado por algo que não fez e, assim, o espectador percebe o mundo como corrompido perante a integridade do caráter do herói, nos filmes de Lang, ao contrário, a inocência não existe de partida, ou então será destruída. Seu gosto, sua atenção, se voltam àqueles personagens que fazem o mal, que se movem pelo mal. Não porque são seres condenáveis, nem mesmo exóticos; são, ao contrários, muito próximos de nós e compõem um retrato pouco admitido do homem e da civilização.

Como se ainda não bastasse, aos 66 anos de idade, Lang retorna à Alemanha, onde realiza seus três últimos filmes. Mas tal retorno é ainda maior: ele tira da gaveta roteiros da década de 20 de sua ex-mulher Thea von Harbou, de quem se separou em 1933 quando ela se aliou ao nazismo, realizando filmes de aventura em paisagens exóticas, como os que realizara no início da carreira: são o díptico O TIGRE DE BENGALA e O SEPULCRO INDIANO, ambos de 1959 e protagonizados por Debra Paget. Sua obra derradeira, OS MIL OLHOS DO DR. MABUSE, é um retorno também a um velho personagem, perverso e malvado, dos velhos tempos.


———————————————————————–Serviço:


Retrospectiva “Fritz Lang – O horror está no horizonte”
CCBB-SP: 11/07 ~ 24/08
Cine Brasília: 24/07 ~ 27/08
CCBB-RJ: 13/08 ~ 22/09
Ingressos: R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia)

———————————————————————–Programação em São Paulo:


Sexta 11/7
17h – O Grande Segredo (107 min, 35 mm)
19h30 – M., O Vampiro de Dusseldorf (111 min, 35 mm)

Sábado 12/7
16h – Os Espiões (150 min, 35 mm)
19h – A Gardênia Azul (88 min, 35 mm)

Domingo 13/7
16h – Os Conquistadores (95 min, 16 mm)
18h – Depois da Tempestade (45 min, 35 mm)

Quarta 16/7
17h – Só a mulher peca (105 min, 35 mm)
19h – Os carrascos também morrem (140 min, 35 mm)

Quinta 17/7
16h – Os mil olhos do Dr. Mabuse (103 min, 35 mm)
18h – Carta Branca Inácio Araújo: O testamento do Dr. Mabuse (121 min, 35 mm)
Sessão seguida de debate com Inácio Araújo, crítico de cinema da Folha de S. Paulo

Sexta 18/7
16h – Depois da Tempestade (45 min, 35 mm)
17h30 – Quando desceram as trevas (87 min, 35 mm)
19h30 – Vive-se só uma vez (86 min, 35 mm)

Sábado 19/7
14h – A Gardênia Azul (88 min, 35 mm)
16h – Desejo Humano (91 min, 35 mm)

Domingo 20/7
15h – Corações em Luta (56 min, 35 mm)
16h30 – O segredo da porta fechada (99 min, 35 mm)
18h30 – O grande segredo (107 min, 35 mm)

Quarta 23/7
16h – A mulher na Lua (169 min, 35 mm)
19h30 – Um retrato de mulher (99 min, 35 mm)

Quinta 24/7
16h – Quando desceram as trevas (87 min, 35 mm)
18h – Carta Branca Eduardo Santos Mendes: M., o vampiro de Düsseldorf (111 min, 35 mm)
Sessão seguida de debate com o editor de som e professor da USP Eduardo Santos Mendes

Sexta 25/7
15h30 – Corações e Luta (56 min, 35 mm)
17h – Almas perversas (102 min, 35 mm)
19h30 – Fúria (92 min, 35 mm)

Sábado 26/7
15h – Só a mulher peca (105 min, 35 mm)
17h – Vive-se só uma vez (86 min, 35 mm)
19h – Os Espiões (150 min, 35 mm)

Domingo 27/7
15h – As Aranhas, Parte 1: O Lago Dourado (56 min, 16 mm)
16h30 – As Aranhas, Parte 2: O Barco de Diamantes (81 min, 16 mm)
18h30 – Os mil olhos do dr. Mabuse (103 min, 35 mm)

Quarta 30/7
16h30 – Dr. Mabuse, parte 1: O Jogador (155 min, 35 mm)
19h30 – Dr. Mabuse, parte 2: O Inferno do Crime (115 min, 35 mm)

Quinta 31/7
17h – O homem que quis matar Hitler (102 min, 16 mm)
19h – Os carrascos também morrem (140 min, 35 mm)

Sexta 01/8
15h – O testamento do dr. Mabuse (121 min, 35 mm)
17h30 – A morte cansada (99 min, 35 mm)
19h30 – Almas perversas (102 min, 35 mm)

Sábado 02/8
14h30 – Casamento Proibido (87 min, 35 mm)
16h30 – Metrópolis (150 min, 35 mm)
19h30 – O Desprezo (103 min, 35 mm)

Domingo 03/8
16h – Coração Vadio (117 min, 35 mm)
18h30 – Desejo Humano (91 min, 35 mm)

Quarta 06/8
16h30 – Um retrato de mulher (99 min, 35 mm)
18h30 – A mulher na Lua (169 min, 35 mm)

Quinta 07/8
16h30 – A morte cansada (99 min, 35 mm)
18h30 – Carta Branca Francis Vogner dos Reis: O segredo da porta fechada (99 min, 35 mm)
Sessão seguida de debate com Francis Vogner dos Reis, crítico de cinema e programador

Sexta 08/8
16h – As Aranhas, Parte 1: O Lago Dourado (56 min, 16 mm)
17h30 – As Aranhas, Parte 2: O Barco de Diamantes (81 min, 16 mm)
19h30 – Maldição (88 min, 35 mm)

Sábado 09/8
15h – O tesouro do Barba Rubra (87 min, 35 mm)
17h – O tigre de bengala (101 min, 35 mm)
19h – O sepulcro indiano (101 min, 35 mm)

Domingo 10/8
15h – Dr. Mabuse, parte 1: O Jogador (155 min, 35 mm)
18h – Dr. Mabuse, parte 2: O Inferno do Crime (115 min, 35 mm)

Quarta 13/8
16h – Os Nibelungos: A morte de Siegfried (142 min, 35 mm)
19h – Os Nibelungos: A vingança de Krimhield (148 min, 35 mm)

Quinta 14/8
16h30 – Casamento Proibido (90 min, 35 mm)
18h30 – Carta Branca Sérgio Alpendre: No Silêncio de uma Cidade (100 min, 35 mm)
Sessão seguida de debate com Sérgio Alpendre, professor e crítico de cinema da revista Interlúdio

Sexta 15/8
17h – Suplício de uma alma (81 min, 35 mm)
19h – Metrópolis (150 min, 35 mm)

Sábado 16/8
15h – Os conquistadores (95 min, 35 mm)
17h – O retorno de Frank James (93 min, 35 mm)
19h – Os corruptos (89 min, 35 mm)

Domingo 17/8
16h – Guerrilheiros das Filipinas (105 min, 35 mm)
18h30 – O diabo feito mulher (90 min, 35 mm)

Quarta 20/8
16h30 – Harakiri (60 min, 35 mm)
19h – Os Nibelungos: A morte de Siegfried (142 min, 35 mm)

Quinta 21/8
17h – O homem que quis matar Hitler (102 min, 16 mm)
19h – Os Nibelungos: A vingança de Krimhield (148 min, 35 mm)

Sexta 22/8
17h30 – O diabo feito mulher (90 min, 35 mm)
19h30 – O tesouro do Barba Rubra (87 min, 35 mm)

Sábado 23/8
17h – No silêncio de uma cidade (100 min, 35 mm)
19h – Suplício de uma alma (81 min, 35 mm)

Domingo 24/8
16h30 – Harakiri (60 min, 35 mm)
18h – Os corruptos (89 min, 35 mm)

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