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Presente de grego em Berlim

JOURNEY TO THE WEST

O inverno está chegando: Em Berlim nevou, choveu, ventou… Os ursos se perderam na nevasca e, talvez por isso, um dos festivais mais interessantes do calendário (senão o melhor de 2012 e 2013) foi apenas mediano. E diante do frio, da recepção gélida da mídia, da critica, do público, os ursos logo perderam o interesse, se cansaram, voltaram a hibernar, sonhar com o passado, com a aurora da infância. Um tema, aliás, que se repetiu exaustivamente com JACK, com MACONDO, com BOYHOOD e até mesmo com THE THIRD SIDE OF RIVER, mas nada animou, nem mesmo o filme de Linklater planejado ANTES DA MEIA NOITE, um pouco ANTES DO ENTARDECER, e talvez fosse por isso mesmo: Os ursos estavam com preguiça, com sono. Queriam a noite. Queriam um Noir para sonhar.

E, então, um conto tão ambicioso, tão inteligente, tão visionário, nada menos que 12 anos de trabalho, imprevistos, impensados, no mais ínfimo, no mais ordinário épico do fragmento de uma família crescendo diante de nossos olhos, isso não contou aos ursos. Não é politico. Não é polemico. A infância e seus jogos, afinal, não interessam ao mundo real. O Festival queria algo mais “duro e sujo”, mais “sutil e perigoso”, o carvão preto, o gelo fino, donde se filma uma China com UM TOQUE DE PECADO.

E dai o detalhe: Ao filmar a “noite” desse país como TERRA DE NINGUÉM, disfarçado no mais antigo dos gêneros, massageando o ego (cegamente?) da censura local, os Ursos reacendem uma fagulha dentro desse inferno de abuso contínuo, maus-tratos e negligência para, afinal, colocar os holofotes, no mais provincial e mais humilde dos lugares: A miséria humana. E ao voltar todos os olhos para esse país cheio de segredos e artimanhas, maquiado preto no branco, estilizado romântico no real, daí os ursos rugem! Porque tem (um pouco de) politica, polêmica e cinema.


E cadê a GLORIA de 2013? Cadê o TABU de 2012? A resposta vem do curioso cinema grego e chama-se “malakas”, do grego “μαλάκας”, do inglês “lame”, do português “vacilão”… Estão acompanhando senhores? Os ursos não… porque não há o que acompanhar. É a sonolência que se arrasta desde o começo, clichê após clichê, melodrama após melodrama, o filme mais chato que Rachid Bouchareb já fez; o museu cinematográfico de George Clooney; o interminável telefilme novelesco de Dominik Graf; um novo capítulo do expressionismo latino, mas nada que se compare aO SOM AO REDOR… Não há palavras para descrever tamanha inercia, mas logo os Ursos aprendem: Se pronuncia “malakas”. E isso é dito mil vezes, em um mantra de ódio do mais novo eSTRATOS da escola grega. E, sim, o filme de Yannis Economides pouco vale além do “Ame ou Deixe”, mas deixa sua marca porque depois veio PRAIA DO FUTURO, INBETWEEN WORDS, ALOFT… E a cada filme, a crítica gritava um “malaka” diferente. Uma decepção. Mais uma. Outra.

E foi assim até a casinha de Yôji Yamada… Ao urso coube uma lagrima, não de comoção, mas talvez de desapontamento: Seu banquete cinematográfico termina pequeno, no teatrinho filmado em estúdio, luz artificial, atrizes no ápice do melodrama. Não bem um “malaka” porque os japoneses tem uma palavra própria para isso: Chama-se “shomingeki” e lembra Ozu. Afinal a sincera homenagem da Berlinale ao estúdio Shochiku, que eu realmente gosto, muitos não. Uma pena.

Os ursos estão confusos… É possível celebrar essa competição? Esse banquete? Amá-lo, bebê-lo, cantá-lo? Sim, porque segundo Alain Resnais, com seus 91 anos de idade, VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA! E em cena, se apresenta seis atores, três casais e um George Riley imaginário. A farsa de vida e morte, de cinema, de teatro, em quadrinhos, enfim a alegria expressa em um ratatouille com sabor de primeiro amor, de primavera, de arte e – porque não? – de inovação. Então eis o Prêmio Alfred Bauer de Melhor Revelação de 2014, merecidamente pela “vida de Riley”, pela vida de Resnais.


Um urso foi para Budapeste, para a distante e imaginária Zubrowka, se hospedar no grande hotel de Wes Anderson, lá abriu o Festival e por lá ficou, talvez para ouvir tantas histórias perdidas, entre poemas, peças, romances, que louvam a tradição europeia e o humanismo de uma época que o vento levou. E curiosamente brincar com a proporção do cinema, isso visto antes do Cinemascope e do Vistavision, mas agora em uma janela mais acadêmica. É, afinal, a comedia que excita a plateia e abranda os ursos, tão esfomeados de bom cinema que pouco se viu daí em diante.

Há esperança, logico, e está no Oeste: Tsai ming-liang com meio filme, faz mais que qualquer outro em competição. A meditação meticulosa em ângulos inusitados e contundentes. Um diretor que pesa o ritmo, e lentamente, simplesmente para destilar o fino da imagem e (nos) arrebatar. E, já sabíamos, não poderia ser diferente.

Por fim, Ira Sachs confirma que realmente LOVE IS STRANGE: E depois de uma semana de amores com John Lithgow e Alfred Molina, sem quaisquer outros concorrentes (gays) na Berlinale, o mais alegre dos ursos consagra – e finalmente – a infância e um brasileiro: HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO leva o Teddy e o Prêmio da Crítica. Um surpreendente “fell good movie” que, ao contrário de Karin Aïnouz, não morre na praia. Talvez porque os ursos graúdos, extenuados pelo cinema grego, logo gritaram “malaka” para o sutil melodrama de Wagner Moura e Clemens Schick. Ou talvez porque esse filme remeta à ensolarada Côte d’Azur, a beira do Mar Mediterrâneo. Então é pior… Porque aqui os ursos sonolentos não avançam. Não gostam do calor, dos flashes, do burburinho, do glamour de Cannes. Sim, nunca gostaram do vizinho: Lá são palmas e eles preferem tapas, carvão preto e gelo fino… E infelizmente se contentam com isso. Malakas!


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FESTIVAIS

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