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Sob as estrelas deleitam-se os olhos…

POETRY


O poeta Octávio Paz disse uma vez: “Basta a um homem prisioneiro fechar os olhos para que tenha o poder de explodir o mundo”; E eu acrescento, o parafraseando: “Bastará que a pupila branca da tela possa refletir a luz que lhe é própria para fazer explodir o Universo”.

Sim, o manifesto é talvez um pouco alarmante, mas a melhor maneira de definir o que é essa luz, tão dosada e dominada, o cinema! Porque nenhuma das artes tradicionais manisfesta desproporção tão grande entre as possibilidades que oferece e suas realizações. Porque age de maneira direta sobre o espectador, apresentando-lhe seres e coisas concretas. Porque o isola, graças ao silêncio e à escuridão. O cinema é capaz de pôr o espectador em êxtase melhor que qualquer outra expressão humana, mas, melhor que qualquer outra também, é capaz de embrutecê-lo. E infelizmente a grande maioria da produção cinematográfica atual parece não ter outra missão: As telas ostentam o vazio moral e intelectual no qual chafurda o cinema; de fato, ele se limita a imitar o romance ou o teatro, com a diferença de que seus meios são menos ricos para exprimir a psicologia; Ele repete à saciedade, as mesmas estórias que o século XIX já se cansaram de contar e que continuam ainda a fazê-lo nos romances contemporâneos.


E às vezes, curiosamente, a essência cinematográfica jorra de maneira insólita de um filme anódino, de uma comédia-bufa ou de um dramalhão. “Os piores filmes que pude ver, os que me mergulham num sono profundo, contêm sempre cinco minutos maravilhosos; ora, os melhores filmes, os mais cobertos de louvores, não contam com mais de cinco minutos válidos”, me disse o fotografo Man Ray, certa vez. Isso quer dizer que em todos os filmes, bons ou maus, além e apesar das intenções dos realizadores, a poesia cinematográfica luta para vir à tona e se manifestar.

O cinema é uma arma magnífica e perigosa se é manejada por um espírito livre. É o melhor instrumento para exprimir o mundo dos sonhos, das emoções, do instinto. O mecanismo criador de imagens cinematográficas é, por seu funcionamento, o que, entre todos os meios de expressão humana, lembra melhor o trabalho do espírito durante o sono. O filme parece uma imitação involuntária do sonho. O celebre ator, Jacques B. Brunius, observa que a noite que invade pouco a pouco a sala equivale à ação de fechar os olhos. É então que começa, na tela e no fundo do homem, a incursão noturna no inconsciente; As imagens, como no sonho, aparecem e desaparecem por intermédio de fusões; O tempo e o espaço tornam-se flexíveis, retraem-se ou distendem-se à vontade; A ordem cronológica e os valores relativos de duração não correspondem mais à realidade; A ação cíclica deve realizar-se em alguns minutos ou vários séculos; Os movimentos aceleram os atrasos.


Em UMBERTO D, um dos filmes mais interessantes produzidos pelo neo-realismo, um rolo inteiro de dez minutos mostra uma empregadinha realizando atos que, há ainda pouco tempo, poderiam ter parecido indignos da tela. Na tela, vêmo-la entrar na cozinha, acender o fogão, pôr uma caçarola no fogo, atirar – várias vezes – água em formigas que avançam em fila indiana pela a parede, dar o termômetro a um ancião que se sente febril etc. Apesar do lado trivial da situação, essas manobras são acompanhadas com interesse e há, mesmo, certo suspense.

Porque o mistério, a poesia, tudo o que completa e amplia a realidade tangível, o filme em si, contemplado por seres diferentes, pode ser mil coisas diferentes, porque cada um verte uma dose de afetividade sobre o que olha e ninguém vê as coisas como elas são, mas como os desejos e seu estado de alma o fazem ver. E dessa porta, desse pedacinho da realidade, se abre um mundo maravilhoso do desconhecido, de tudo o que não encontro na vida ou na rua, mas encontro ali, no cinema, na sala escura, na tela que reflete o mundo.

E que eu escrevo tudo e sobre, há 10 anos…

SPOILER
2003 ~ 2013


Artigo livremente inspirado de conversas de Luis Buñuel

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ARTIGOS

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