O Leão Penitente


Quem esteve em Cannes 2011 e viu a catarse que foi ARIRANG, não o filme em si, mas o contexto que foi (re)ver um autor retornar para o cinema e sua casa, sabe o quão merecido foi ver Kim Ki-duk receber o Leão de Ouro em Venezia´69. E quem viu PIETA no Lido, na Sessão de Imprensa, justamente entre os Leões, e testemunhou incrédulo, o filme ser ovacionado (não se sabe por convicção ou incentivo) pela imprensa e, depois pelo publico (e daí para o mundo), já sabia o quão (parecia) justo este prêmio.

Porque PIETÁ, além de um extraordinário trabalho é, antes de tudo, o “coming back” de um cineasta, que conheceu o inferno, o abandono, a depressão, enfim a crise do homem e do artista. Que (quase) se matou e renasceu. E cujo processo filmou, ao seu modo, como quis, e não importa o quão chato ou maluco foi, um filme. ARIRANG. A sua terapia. Um filme, literalmente, vital. Cannes sabia disso. Tanto que reconheceu o pedido de socorro, atendeu o chamado e, detalhe, fora de competição.

Nem todo mundo vai entender a canção de Kim Ki-Duk, música que canta a cada premio, a cada apresentação, a cada filme e, que, naturalmente cantou na Sala Grande ao receber seu Leão. Mas quem entendeu ARIRANG, o que essa cinematerapia representou para esse homem, a paz interior contida nessa película, vai entender e certamente se emocionar: Porque Venezia, ao seu modo, terminou o que Cannes começou: Salvou o artista. Salvou o homem.

E Paul Thomas Anderson, sem duvida com o Melhor Filme, sendo o Melhor Diretor e com os Melhores Atores, perdeu o Leão para ganhar o Oscar. Porque, sabemos, Hollywood desdenha o Urso, a Palma, o Leão, já que não é necessário reconhecer um filme já laureado. Sim, há casos, mas é raro, muito raro. Os Weinsteins conhecem o jogo. E sabem jogá-lo. Perfeitamente.

Uma surpresa foi ver Ulrich Seidl com o Prêmio do Júri: Sim, o cineasta que escandalizou Venezia não é santo, mas também não é blasfemo ao que parece. E o Leão, benevolente, lhe entrega um prêmio por sua “fé”, que é pior que seu “amor” e cuja “esperança” fica para Berlim, para selar (ou não) seu “Paraíso”

Infelizmente, não houve piedade para Cho Min-soo. A Copa Volpi foi para uma atriz mais jovem, Yaron Hadas que preencheu cada espaço vazio da tela, na estreia ortodoxa de Rama Burshtein. Uma cineasta que, aliás, vale ficar de olho.

E assim foi Venezia: Um Festival que começou fraco, muito fraco, na PENITÊNCIA de mais de quatro horas de Kiyoshi Kurosawa; no esquete ridículo de Xavier Giannoli, melhor filmado com Wood Allen, no horroroso PARA ROMA COM AMOR; na traição passional e desconcertante de Kirill Serebrennikov; na rebelião da granja de Dennis Quaid em AT ANY PRICE e, depois, foi se encorpando, nos maravilhando com suas infinitas possibilidade, no TO THE WONDER de Malick (aka A ÁRVORE DA VIDA 2), no próprio golpe de mestre de PT Anderson, na orgia yakuza de Kitano, no retrato revolucionário (e pessoal) de Maio´68 de Assayas (que, aliás, levou o Prêmio de Roteiro). Enfim, com LINHAS DE WELLINGTON, sem mistérios de Lisboa, sem Raul Ruiz, mas honesto; o doido “Scarface” de Harmony Korine, o MAR ADENTRO de Bellocchio que despertou a Itália (e a polêmica), o lado negro (e bizarro) dAS QUATRO VOLTAS e, novamente Mendoza, fértil em seu cinema, inspirado no retrato de suas Filipinas.

Um Festival que terminou em palmas, em vaias, com De Palma. E música… Triste. Melancólica. Surpreendente. Sem dúvida, penitente. Um leão para refletir sentimentos e sensações dispares: Horror e poesia, violência e amor, dor e alegria, inocência e barbárie. Uma jornada de expiação, sempre em busca de redenção, talvez de piedade em tempos tão obscuros.

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