A pobre (a)mostra inédita de cinema


Isolado, na beira do abismo, dentro da caverna…

Leon Cakoff, 62, está doente. Muito doente. Não à toa, recebemos a Mostra SP 2011 com lágrimas nos olhos, seja de sua esposa, Renata de Almeida, co-diretora; seja de um GAROTO E SUA BICICLETA, filme de abertura do evento, também “órfão” de um pai; seja pela indignação dos cinéfilos diante do tal “ineditismo”.

Porque, sim, estamos diante de algo incomum na Mostra. Não digo da decisão ousada, talvez absurda, talvez arrogante, de restringir a seleção oficial de filmes estrangeiros à Premieres. Fato que exclui muito dos melhores filmes do ano, exibidos no Festival do Rio e inéditos na capital paulista. Mas digo que pela primeira vez na historia, depois de 34 edições, a Mostra SP abre oficialmente sem o seu principal mentor.

Foi de Cakoff a idéia – o risco – de selecionar apenas filmes exclusivos. Idéia que, como uma metástase, viajou por toda a instituição da Mostra e, por fim foi aceita. Decisão que trocou os últimos filmes, os melhores títulos – os eventos do ano – de Abel Ferrara, Bertrand Bonello, Christophe Honoré, Steven Soderbergh, Todd Solondz, Nicolas Winding Refn, Nadine Labaki, Valérie Donzelli, Gus Van Sant, Chantal Akerman, Sean Durkin, Markus Schleinzer, Gerardo Naranjo, David Cronenberg, Bruce Beresford, Pedro Almodóvar, Maïwenn, Aki Kaurismäki, Julia Leigh, Radu Mihaileanu, Asghar Farhadi, Emanuele Crialese, Paddy Considine, Lone Scherfig, Andrea Arnold e Paolo Sorrentino por apenas um Kore-eda, um Sokurov e um Irmãos Dardenne.

A Seleção 2011 da Mostra SP não é fraca, mas fica muito atrás e aquém da triagem do Festival do Rio. Simplesmente não mata a fome do cinéfilo paulista que, agora, desconsolado, parte para o evento carioca, curiosamente à caça de seus filmes, como em São Paulo, o Piteco de Mauricio de Souza corre atrás de seus búfalos na simpática vinheta.

É pouco. É uma decepção, mas talvez essencial: Saber que a Mostra 2011 saiu do papel é um alívio. Particularmente, achava que seria cancelada. Mas soube ainda em Maio que através do empenho da equipe e dos patrocinadores sairia. Saiu! Um pouco aos trancos e barrancos, certamente menor, mas extremamente “fortalecida”.

Foi pensada assim: A essência dessa seleção é o line up do Festival de Berlim, realizado em Fevereiro. Não havia tempo para esperar por novos filmes, Cannes, Veneza, Toronto. Não havia cabeça para exaustivas negociações com distribuidores. Ninguém viajou para os mercados estrangeiros. A curadoria estava debilitada. Pediu ajuda aos parceiros, amigos, colaboradores… A Wildbunch e a Match Factory disponibilizou praticamente seu catalogo completo. O tempo urgia. Então, a seleção, contemplou os filmes do primeiro semestre. Era a – única – solução. De Veneza, veio apenas o Kore-eda e o Sokurov, diretores onipresentes no evento paulista. De Toronto, não veio nada. De San Sebastian, idem. De Locarno, apenas um filme. A 35ª Mostra, ao que parece, estava praticamente pronta em Agosto.

Para a curadoria, esse “ineditismo” veio para valorizar os filmes e a Mostra. Digo que veio para salvá-la. É uma experiência nova? Sim. É uma boa idéia? Não. Mas era uma alternativa viável para que o Festival suspirasse. Um remédio amargo. Tratamento de choque. Triste, melancólico, como será a Mostra 2011. Um evento isolado, um Festival enfraquecido para se esquecer dentro da caverna mais profunda de nossa memória. Encerrá-la com FAUSTO e Sukorov nunca pareceu tão apropriado.

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FESTIVAIS

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