O Hithcock contemporâneo

Sem como nem porquê, acontecem coisas em Filadélfia. As pessoas param, mas não escutam nem olham. Simplesmente se suicidam com o que tiverem nas mãos. Parece que anda qualquer coisa no ar, mas ninguém sabe explicar o que é. Todos perguntam, todos especulam, mas só há uma certeza: ninguém está a salvo. Tal como Haley Joel Osment em O SEXTO SENTIDO, também vemos pessoas mortas por todo o lado, mas aqui não há mistério; Estão realmente mortas, sem enrolação possível.

A absoluta falta de nexo em tudo o que se passa é o combustível do pânico coletivo que se instala. M. Night Shyamalan, 38 anos, volta a desafiar o espectador com o gosto de quem viu muitos “paranóia movies” dos anos 50 e 60 e, por isso, já sabe a fórmula de cor.

“É ótimo fazer um filme sobre uma coisa que não se vê, que fica na área da poesia, sem definição, e pede às pessoas para participarem.” Uma técnica do “suspense” que conhece desde que é adolescente. A prova está num bloco de notas muito rasurado que entretanto vem a propósito na entrevista.

“Uma das primeiras lições que aprendi, no ALIEN, foi com a pele da criatura que estava sempre a crescer, sem se perceber porquê. Lembro-me de como era fantástico que A + B + C levassem a D. Mas também que não era preciso chegar sempre ao D. Podia só mostrar o B e as pessoas ficavam assustadas mesmo assim.”

Em FIM DOS TEMPOS/ THE HAPPENING o princípio é o mesmo. “O vento sopra e as pessoas começam a fazer coisas horrendas a si próprias. Mostro o vento soprando… e logo se percebe. Depois, se descobre que a raiz do fenômeno fatal, está numa espécie de vingança da mãe natureza contra todos os atentados ambientais cometidos pelos seres humanos”, Shyamalan incluso. “Se as plantas desaparecerem, serei o primeiro a ir com elas, porque tomo duchas demoradas e deixo as luzes ligadas. Vou ser o primeiro a ser despachado!”

O ator Mark Wahlberg, pelo contrário, é ambientalmente correto, onde quer que esteja. “Antes de sair do quarto do hotel, desliguei as luzes e a TV.” Nem sempre foi assim, mas, aos 37 anos, está consciente da importância dos pequenos gestos. “Em casa, tento que meus filhos percebam o que está acontecendo.” O ambiente agradece e o orçamento familiar fica menos pesado.

Confirmada a conspiração ecológica como matriz do “thriller”, fica de parte um possível ensaio sobre terrorismo biológico. Seguir a sombra do 11 de Setembro já não faz muito sentido para Shyamalan. “Há ameaças maiores por aí… e andamos tão obcecados com isso. É um exagero.” Culpa de quem? Nossa. “Eles [os órgãos de comunicação social] fizeram exatamente o que eu faço para ganhar a vida, eles entretêm… Na verdade, fazem o que eu faço: assustam as pessoas. É um dos fatos da vida com que temos que lidar.”

Quem gostou de SEXTO SENTIDO, CORPO FECHADO ou SINAIS provavelmente gostou menos dA VILA e menos ainda de DAMA NA ÁGUA. É, pelo menos, o que indica a curva das bilheteiras e também a generalidade das reações. A aparente perda de fãs e as notas da crítica não chegam, no entanto, para demover M. Night Shyamalan.

Depois de vários estúdios terem recusado a primeira versão de FIM DOS TEMPOS, o diretor se virou para a Índia, o país natal, onde conseguiu financiamento de uma produtora local que viria ser determinante para o apoio da 20th Century Fox na distribuição internacional do filme. O fim que muitos vaticinaram a Shyamalan depois do estrondoso fracasso de DAMA NA ÁGUA acabou assim por não se confirmar. Dois anos depois, o diretor só lamenta não ter feito mais dinheiro para a Warner Brothers.

“Essa é a única coisa que gostava que tivesse acontecido. Mas percebi o que escreveram. Era um filme diferente (DAMA NA ÁGUA) e eles não o perceberam. Mas foi feito para ser diferente. Foi uma luta. Só podia ser uma luta. Afinal, eu matei [a personagem] o crítico no filme. Provoquei-os. Mas algumas lutas valem a pena, mesmo que sejamos derrotados.”

A derrota é assumida, mas há mais caminho para percorrer e também a expectativa de que, com FIM DOS TEMPOS, haja mais justiça naquilo que se escrever sobre ele. “Espero que sim. Acredito que o tempo estará a meu favor. Só tenho que continuar a fazer filmes. Ao fim de algum tempo, o fato de fazer filmes não será uma grande questão.”

E o fato de só fazer filmes misteriosos ou sobre fenômenos paranormais? Não será também estigmatizante? Shyamalan responde com uma metáfora e um apelo. “Costumo pensar que o público quer sair comigo. Mas parece que espera sempre que eu faça isto ou aquilo, que vou levar flores, chocolates, que sou muito engraçado e que talvez dê um beijo… Acalmem-se! Talvez não leve flores, mas pode ser um bom encontro na mesma!”

Independentemente das críticas e dos resultados conseguidos com FIM DOS TEMPOS, M. Night Shyamalan já tem um projeto novo. É o próprio que o confirma, invocando influências do SENHOR DOS ANÉIS, MATRIX e também dos primeiros filmes da GUERRA NAS ESTRELAS. Vai chamar-se AVATAR: THE LAST AIR BENDER e nasce sob um signo aparentemente diferente de todos os outros filmes do diretor.

“É um universo vasto e interessante, baseado numa série de animação japonesa. Tem muitas referências do budismo e do hinduísmo, o que me atraiu muito. Também tem algumas artes marciais. É uma mitologia incrível com personagens shakespeareanas. Estou muito entusiasmado.”

O apoio da Paramount Pictures está garantido, assim como o trabalho do medo e do desconhecido, mais uma vez. “A história é sobre quatro culturas. Cada uma pode manipular um elemento: água, terra, fogo e ar. E em cada geração nasce uma pessoa que pode manipular os quatros elementos. Essa pessoa deve assegurar o equilíbrio entre as quatro nações para que haja igualdade e todos possam viver em harmonia. Acontece que essa pessoa desaparece e tudo fica virado do avesso…”

Será um avesso mais fantástico que realista. Mas, em todo o caso, um avesso que põe em causa a ordem das coisas, como em todos os filmes que nos assustam, enquanto encenam o insondável. Para FIM DOS TEMPOS, Shyamalan lembrou-se de ALIEN. Para o filme que aí vem, logo veremos o que vai buscar ao bloco de notas tão escrevinhado quando era adolescente.

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Comments

  • Shyamalan ainda acha que é um ser de criatividade inesgotável. Como a Kamila disse, ele precisa comer muito feijão e arroz para alcançar Hitchcock…
    Tomara que ele saiba o que está fazendo (ou fará) com Avatar, sem que para isso precise apelar para o seu subconsciente que ninguém é capaz de entender… só ele.

    Luciano Lima 1 de julho de 2008 22:36 Responder
  • As entrevistas com Shyamalan tendem a ser muito frutíferas, tanto para o entrevistador quanto para os fãs. Ele não tem freios ao falar de si mesmo, de seu processo criativo, de suas fontes criativas.
    Espero não sair decepcionado de FIM DOS TEMPOS.

    Gustavo H.R. 17 de junho de 2008 19:32 Responder
  • Ainda não assisti “Fim dos Tempos”, mas as críticas ao novo filme do Shyamalan têm sido terríveis! E discordo totalmente do título: O Hitchcock contemporâneo! O Shyamalan ainda tem que ralar muito para chegar aos pés do Mestre Alfred!

    Kamila 15 de junho de 2008 17:02 Responder

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