Caindo Lentamente

As conversações sobre APENAS UMA VEZ (ONCE) começaram em 2005 em um concerto do The Frames, em Dublin. John Carney por ser um cineasta com formação em música, sempre quis fazer um filme que, embora não fosse um “musical” tradicional (no sentido usado anos 40), ainda utilizasse uma série de canções para contar uma história de amor muito moderna e muito simples:

“Eu considerei – mas logo depois desisti – uma série de abordagens que avaliei muito ambiciosa. Eu queria achar um cenário e um fio de história simples que pudessem usar canções de uma maneira que os espectadores modernos aceitassem. Finalmente, decidi pela idéia sobre a vida um artista de rua de Dublin; alguém que, sem ter nada, não tem nada a perder”.

Carney desenvolveu uma história de amor simples, essencialmente um diálogo. Então, pediu a Glen Hansard (líder e vocalista da banda The Frames) para escrever algumas canções – que evoluíram aleatoriamente com a história emergente. Ambos trocaram várias idéias – um fio de história aqui, uma canção ali. Ao alimentar os trabalhos um do outro, produziram dez canções originais e um roteiro de 60 páginas.

Carney nunca quis que APENAS UMA VEZ fosse um musical de música-e-dança clássico no qual as cenas terminassem com os personagens principais cantando repentinamente. Ele relembra que a personificação das personagens tornou-se uma parte de sua rotina matinal. “Ela iniciava comigo sentado sozinho fora de casa, tomando café da manhã, com café e cigarros todas as manhãs, tocando as canções e pensando por meses e meses em como eu poderia fazer um pequeno filme que tivesse todas estas canções”, explica ele.

“Para protagonista, eu tinha em mente um ótimo ator irlandês, mas não deu certo. E foi só gradualmente que me ocorreu – enquanto o colocava [Glen] na fita e lhe perguntava sobre suas canções – dar a ele as páginas do roteiro. Ele sairia e escreveria algo de acordo com elas, ou eu escreveria algumas cenas de acordo com a canção que ele me desse. Dei-me conta de que ele era o cara para fazer este papel. Além do mais, ele venderá estas canções melhor do que qualquer outro ator, já que estas são as suas canções”.

Para Marketa Irglova, com apenas 17 anos, o conceito de atuar era completamente estranho, embora tivesse a consciência do projeto e estivesse entusiasmada com ele. “Eu havia ouvido falar da idéia do filme pelo Glen porque ele havia sido requisitado para escrever a música para filme”, ela relembra. “Vi alguns dos filmes de John antes e achei que eram bem legais. A idéia do filme soava bem e, então, uma noite eu recebi um telefonema de Glen me perguntando se eu gostaria de atuar em seu filme. Pensei que estivesse brincando! Mas ele estava sério, dizendo que John estava pensando em me colocar no elenco do filme, que ele queria que eu fizesse um teste”.

Naquele ponto, Carney sentiu-se bastante confortável com as pessoas à sua volta e envolvidas com o filme. Além de Glen e Marketa, a equipe consistia de muitos amigos. “Eu conhecia e confiava em todos”, explica. “Eles entenderam a idéia do filme não ser convencional. Então, já que meus amigos estavam fazendo esse filme comigo, eu me sentia ‘Brilhante! ‘“.

“É como se estivéssemos de volta aos 16 anos, com uma câmera, amigos e algumas canções. E eu acho que as pessoas que assistiram ao filme responderam muito calorosamente a isso, porque viram que ninguém estava tentando vender nada a ninguém aqui. Essa é a sensação”.

O plano de fundo consiste, na maior parte, de ruas, lojas e interiores insalubres das casas dos personagens principais na cidade de Dublin; nenhum deles possui uma casa própria, com Guy se mudando de volta para a casa de seu pai após a morte de sua mãe, enquanto a garota vive com sua mãe que não fala inglês e sua pequena filha. Gradualmente, seus dois mundos se cruzam por meio de seu amor comum pela música.

Com Glen Hansard e Marketa Irglova dividindo a tela na maior parte do tempo, seus personagens formam uma ligação artística e, como resultado, apaixonam-se. E, embora nenhum dos dois seja ator, tanto Hansard como Irglova desenvolveram seus papéis com uma naturalidade e carinho impressionantes. “Eles têm um bom relacionamento, então isso ajudou bastante”, disse Carney. “Gosto bastante do benefício de ter atores que se conhecem. Isso certamente me ensinou a fazer com que os atores saiam uns com os outros e se conheçam antes de começar um certo estilo de fazer filmes”.

As canções são, obviamente, um elemento essencial de APENAS UMA VEZ. John Carney descreve Hansard como “um bom letrista porque suas canções nunca são literais. Suas canções falam de quadros e imagens e idéias e momentos no tempo. Elas são bastante vagas, de uma forma muito boa que as canções conseguem ser. E elas são também muito abertas à interpretação, são como um bom poema, que num certo dia não faz sentido, e, então, de repente, possui um significado real porque você consegue vivenciar de alguma forma aquela experiência. Ele pinta pequenos quadros com as canções”.

Caindo Lentamente (Falling Slowly)
Glen Hansard & Markéta Irglová

Eu não a conheço
Mas quero você
Tudo mais para isso
Palavras caem através de mim
E sempre me enganam
E não consigo reagir
E jogos que nunca se encaixam
Mais do que deveriam
Terminarão por si mesmos

Entre neste barco que afunda e o leve para casa
Ainda temos tempo
Levante sua voz esperançosa, você tem uma escolha
Você acabou de fazê-la

Caindo lentamente, olhos que me conhecem
E não posso voltar
Humores que me levam e apagam
E estou pintado de preto
Você sofreu o suficiente
E lutou consigo mesma
É tempo de você ganhar

Entre neste barco que afunda e o leve para casa
Ainda temos tempo
Levante sua voz esperançosa, você teve uma escolha
Você acabou de fazê-la

Entre neste barco que afunda e o leve para casa
Ainda temos tempo
Levante sua voz esperançosa, você teve uma escolha
Você acabou de fazê-la
Caindo lentamente, cante sua melodia
Eu cantarei junto

Article Categories:
MAKING OF

Deixe uma resposta