Chuva e metas ecológicas dão o tom no Oscar

A chuva que castigou Los Angeles durante todo o domingo obrigou algumas estrelas a mudarem, no último minuto, o modelito que usariam durante o desfile pelo tapete vermelho, antes da entrada no Kodak Theatre. Embora nenhuma confesse nem sob tortura ter seguido tal estratégia, especialistas em moda garantem que o mau tempo desencorajou o uso de vestidos brilhantes demais – a falta da luz do sol ofuscaria alguns efeitos, o que provocaria uma importante perda de pontos no quesito “causar impressão” na passarela. Afinal, como nem todos saíram da festa com uma estatueta debaixo do braço, nada melhor que marcar presença no tapete vermelho.

A determinação de aparecer a todo custo foi seguida por todos que acompanharam a chegada das estrelas – repórteres de diversos países pareciam fazer concorrência direta com os atores, tal o esmero (ou seria exagero?) com que se vestiram e armaram o penteado. O Brasil chamou atenção com a presença da equipe do programa Pânico na TV: o repórter Vesgo colocou uma espécie de gravata amarela amarrada na cabeça, o que chamava atenção tanto quanto pelas perguntas inusitadas.

Acompanhando a distância todo o brilho mundano, executivos do cinema estavam preocupados com outro assunto. Os principais prêmios do Oscar ainda não tinham sido entregues na noite de ontem e uma discussão já dominava os bastidores: teriam os blockbusters, aqueles filmes que arrastam verdadeiras multidões às salas, perdido seu prestígio? Afinal, em um passado não tão distante, longas como TITANIC e O SENHOR DOS ANÉIS não apenas estouravam nas bilheterias como abocanhavam uma boa quantidade de indicações no Oscar. Na cerimônia deste ano, porém, os dois filmes com mais indicações (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ e SANGUE NEGRO), se somadas suas arrecadações, não chegavam perto nem da metade conquistada, por exemplo, por HOMEM ARANHA 3, cuja bilheteria já ultrapassa os 330 milhões de dólares e não foi finalista em nenhuma categoria do Oscar.

Os blockbusters continuam necessários, mas a tendência, segundo especialistas, é o surgimento de filmes que se tornam vagarosamente um sucesso de bilheteria. Todos os estúdios já têm um departamento responsável por projetos de baixo orçamento(ou seja, normalmente abaixo de 50 milhões de dólares) que estão à caça do novo JUNO ou do novo PEQUENA MISS SUNSHINE.

A trajetória já é conhecida: primeiro, o filme desperta a atenção da crítica que, ao elogiá-lo, atrai uma parcela maior de público. Se o longa conquista algumas indicações para o Oscar, sua bilheteria aumenta consideravelmente até o dia da cerimônia, o que já pode considerá-lo um sucesso, mesmo que não leve nenhuma estatueta dourada. O passo final (e consagrador) é conquistar uma boa renda com as vendas em DVD.

“Antigamente, o Oscar apenas coroava o final dessa trajetória”, comentou Tom Ortenberg, presidente da Lionsgate Filme, que venceu o Oscar de melhor filme de 2006 com CRASH. Em entrevista ao jornal USA Today, Ortenberg afirmou que, nos últimos dez anos, mais que com a conquista um Oscar, o sucesso do filme já está praticamente garantido se ganhar alguma indicação. “É o momento que o longa ganha notoriedade internacional.”

O segredo está em apostar na diferenciação. Ou seja, ao lado dos blockbusters, o mercado oferece espaço também para filmes que caem no gosto de um determinado tipo de público. Não apenas um longa para o qual todos correm para ver, mas diversos filmes que trazem uma variedade de tendências.

A diversidade, portanto, é o assunto da vez. E a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas estendeu isso à sua maior premiação. O biodiesel, tão aclamado pelo governo brasileiro como uma fonte saudável de energia, foi utilizado na cerimônia de ontem. “Queremos que a festa seja cada vez mais ecologicamente correta”, disse Sid Ganis, presidente da Academia. Para isso, a entidade contou com a assessoria de uma ong, que indicou as soluções mais práticas.

Assim, o biodiesel foi utilizado nos geradores que forneceram energia para o trabalho da imprensa e para a iluminação do tapete vermelho, por onde as estrelas passaram a caminho do Kodak Theatre.

Outra medida foi a utilização da energia eólica. Com o auxílio do Departamento de Água e Energia de Los Angeles, a transmissão da cerimônia e do tapete vermelho consumiu 100% da energia conseguida com a força dos ventos.

Ganis lembrou ainda dos automóveis que serviram os envolvidos na cerimônia – a maioria utilizou carros não emissores de hidrogêneo na atmosfera. Também todo papel utilizado, especialmente o dos envelopes que contêm o nome dos vencedores, tinham ao menos 30% de material reciclado.

Finalmente, o cardápio oferecido aos convidados, antes, durante e depois da cerimônia, foi todo servido por material biodegradável ou reutilizável. “Acho que demos um grande passo no caminho do uso consciente de energia”, disse Ganis. “No ano passado, a única medida foi diminuir a quantidade de papel consumido.”

Por Ubiratan Brasil (Estado de São Paulo)

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