Notas de Natureza Selvagem

Publicado em 1998, o livro de Jon Krakauer “Na Natureza Selvagem” atraiu leitores de diferentes estilos interessados em saber mais sobre a vida e morte de Christopher McCandless, jovem que abdicou de sua riqueza e identidade (adotando o nome “Alexander Supertramp”) a fim de tentar encontrar o verdadeiro significado de liberdade.

Quando Sean Penn viu o livro, teve uma reação imediata e forte. “Li a obra do início ao fim duas vezes antes de ir dormir. Então, no dia seguinte, acordei e fui logo ver se conseguia obter os direitos. Considerei a história profundamente cinematográfica em relação aos personagens e às paisagens”, conta o ator e diretor. Mas, ainda profundamente sentidos e tentando recuperar-se do falecimento do filho, os McCandless – que foram abordados não só por Penn, mas por uma série de diretores – não tomaram nenhuma decisão. “A família não estava pronta para permitir que o filme fosse feito, mas Sean, muito empolgado, manteve-se em contato com eles”, lembra o produtor Bill Pohlad (O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN). Dez anos depois da primeira tentativa de Penn em obter os direitos, finalmente o telefone tocou. “Eles me ligaram do nada e disseram que estavam prontos. Eu honestamente não sei por que mudaram de idéia, mas mudaram”, diz Penn. O autor Jon Krakauer acredita saber a razão dessa escolha: “Há algo em Sean que é muito direto, você acredita nele porque sabe que ele conta as coisas como elas são”, diz o escritor.

Alguns anos antes da decisão dos McCandless, Penn já tinha o roteiro “escrito” em sua mente, mas foi apenas depois do aval da família que ele se dedicou concretamente à adaptação. “Quando sentei para redigir o primeiro capítulo, dez anos tinham se passado desde que eu lera o livro. Mas não precisei relê-lo. Simplesmente escrevi o que estava na minha cabeça”, ele diz. “Depois, li o livro novamente, prestando mais atenção nos detalhes, e precisei colher algumas informações para ir em frente. No capítulo seguinte, caí na estrada, seguindo os passos de Chris”, diz Penn, que teve difíceis e íntimas conversas com a família McCandless, especialmente com a irmã do rapaz, Carine. O diretor também encontrou-se com muita gente que conheceu Chris durante o período da viagem. “Todos tinham algo útil a dizer”, comenta.

Mais tarde, Penn chegou até mesmo a contratar Wayne Westerberg – de quem Chris tornou-se amigo na Dakota do Sul e que na tela é interpretado por Vince Vaughn para trabalhar como consultor e motorista de caminhão durante a produção de NA NATUREZA SELVAGEM. A fim de acomodar todas as informações que reuniu durante a pesquisa e que desejava passar para a tela, Penn dividiu a estrutura do roteiro em uma série de capítulos, mantendo-se fiel à jornada de dois anos de Chris McCandless. E a idéia de levar autenticidade ao filme marcou o estilo da produção, que mistura visuais épicos e emocionantes com um realismo mais cru, quase como um documentário.

Quando chegou a hora de escolher o elenco, Sean Penn buscou para o papel principal um ator com um idealismo tão franco quanto o de Chris McCandless, e também alguém que lembrasse fisicamente o carismático jovem visto nas fotografias deixadas para trás. Ele encontrou todas essas qualidades no jovem ator Emile Hirsch, com quem passou a se encontrar por um período de quatro meses, de certa forma o testando e confirmando a intensidade de sua dedicação. O diretor explica: “Eu sabia que Hirsch podia interpretar o papel, mas a questão era: ele conseguiria fazer isso todos os dias por oito meses sob duras condições? E estaria disposto a amadurecer, indo de garoto para homem, durante a produção e na tela? Finalmente, dissemos: ‘É, vamos em frente’, e ele saiu-se muito bem.”

Para o ator, as cenas no Alasca foram uma prova-de-fogo e o levaram a seus limites – de maneira que Chris McCandless provavelmente apreciaria. No primeiro dia de Hirsch no Alasca, Sean Penn o fez subir ao topo de um morro bastante íngreme e tomado por neve em condições similares àquelas encaradas por McCandless. Quando outros integrantes da equipe tentaram ajudar Hirsch, Penn os impediu. “Acho que ele queria me testar para ver se eu realmente estava pronto a encarar a natureza”, reflete o rapaz.

Tornando tudo ainda mais desafiador, o ator precisou começar as filmagens 18 quilos abaixo de seu peso, ostentando menos de 52 quilos nas últimas cenas do filme. (As seqüências do Alasca foram filmadas no início do projeto, já que ganhar peso é um processo bem mais rápido que perder.) Ao longo da evolução das filmagens, Hirsch encontraria mais forças, indo do Alasca para o forte calor do Lago Mead e então ao Grand Canyon, onde aprenderia a descer de caiaque as lendárias corredeiras do Rio Colorado. Mas houve alguns momentos de pânico: “Lembro de enfrentar a primeira onda no caiaque. Engoli mais água que uma pia, mas consegui sobreviver e fui para a cama me sentindo um herói”, conta o ator. A jornada “de renúncias” de Chris McCandless teve início quando o rapaz tinha 22 anos, como resultado da revolta contra os pais, cujas vidas eram, em sua opinião, falsas e vazias.

Quem interpreta Walt McCandless, pai de Chris e engenheiro da NASA, é o vencedor do Oscar de Melhor Ator por O BEIJO DA MULHER ARANHA, William Hurt. O ator observa que não tentou refletir diretamente o verdadeiro Walt McCandless. “Acho que essa noção de representar a existência de outra pessoa é muita presunção”, explica. “Não dá para dizer que conhecemos plenamente outro ser humano pois, mesmo no livro de Jon Krakauer, Walt ainda passa pela ‘peneira’ da interpretação do autor. Então, o que eu espero é simplesmente que, ao assistir ao filme, Walt sinta sinceridade na minha interpretação.”

O papel de Billie McCandless, mãe de Chris, foi reservado à atriz vencedora do Oscar® por POLLOCK, Marcia Gay Harden. ela observa que encarou o papel com uma certeza: “Foi muito importante tanto para mim quanto para Hurt levar humanidade aos personagens dos pais.” A única pessoa da família que pareceu logo entender o que Chris estava indo fazer quando saiu de casa sem deixar rastros foi a irmã dele, Carine, em cuja voz indagativa Sean Penn escolheu contar a história. Para fazer a narração e viver Carine, Penn escolheu Jena Malone (O MUNDO DE JACK E ROSE), que se impressionou com a força da irmã de Chris. “Ela encarou bem essa situação”, diz Malone. “Mas, como atriz, também precisei lembrar que essa é a Carine no ‘final da jornada’, e tive que arrumar uma forma de refazer seus passos até aqueles tempos de insegurança e talvez perda da fé.” Malone trabalhou na preparação da narração com a própria Carine McCandless e também com o aclamado poeta americano Sharon Olds, que ajudou a aperfeiçoar as palavras escolhidas.

Para retratar aqueles que McCandless conheceu durante a viagem, Penn montou um elenco formado tanto por excepcionais atores quanto por reais personagens da história, incluindo Leonard Knight, artista que criou a Salvation Mountain em um acampamento de traileres no deserto da Califórnia chamado Slab City e que no filme fala da força do amor. “Não dá para achar essas pessoas no sindicato dos atores”, comenta Penn. Outro que ele encontrou ao longo do caminho foi Brian Dierker, um especialista em corredeiras e em Grand Canyon que trabalhou como coordenador das cenas de água do filme e atuou pela primeira vez como ator, interpretando o personagem do viajante Rainey. “Sean me falava sempre da idéia de interpretar Rainey porque ele achava que daria certo, mas eu sabia que isso significaria entrar em um território completamente novo. Então, tentei demovê-lo da idéia, mas ele insistiu e eu pensei: ‘quantas oportunidades temos na vida de trabalhar com alguém desse calibre?’”.

A companheira de Rainey no filme, Jan, é vivida pela atriz Catherine Keener. Para o papel, Keener precisou entrar em um duro território emocional, indo ao âmago de uma mulher que sofreu uma das piores perdas da vida – o desaparecimento de um filho. “Não consigo imaginar o terror que deve ser não saber onde seu filho está e o que está acontecendo com ele. Acho que por isso Jan foi tão receptiva a Chris”, reflete a atriz. Ao longo de sua épica jornada, Chris também conhece Tracy, uma jovem que cresceu no ímpar ambiente de Slab City. Kristen Stewart (O QUARTO DO PÂNICO) retrata a personagem e seu estilo de vida espontâneo e inocentemente romântico, e precisou fazer algo no filme que ela nunca fizera antes: apresentar-se como cantora diante de um público de reais habitantes de Slab City. “Nunca toquei para ninguém”, ela confessa. “Mas o público era muito caloroso – todos aplaudiam, empolgados por estar ali. Isso tornou tudo muito divertido”, diz.

A última pessoa de quem Chris se torna amigo antes de ir para o Alasca é Ron Franz. Quem interpreta Franz no filme é a lenda dos palcos e telas Hal Holbrook. Sobre o efeito que Chris McCandless exerceu em Ron Franz, Holbrook opina: “É um relacionamento muito interessante que se desenvolve entre um senhor e um jovem, mas, de certa forma, um relacionamento duro. Ron é uma pessoa solitária, assim como Chris. Ele perdeu a família e se estabeleceu à margem da sociedade, mas está preso em um beco sem saída. Ron deixou de aproveitar a vida, e Chris o estimula a viver fora do círculo que criou para si.”

Desde o início, estava claro que NA NATUREZA SELVAGEM precisaria ser filmado com a câmera em movimento e “na estrada”. Penn admite: “Fizemos de tudo nessa produção que não se deve fazer: filmamos na neve, filmamos numa temperatura de 48 graus, filmamos no Rio Colorado.” Sean Penn queria captar paisagens que tocassem a alma das pessoas e para isso saiu em busca de um diretor de fotografia com quem pudesse realmente se entender. Ele havia visto o trabalho de Eric Gautier no filme de Walter Salles DIÁRIOS DE MOTOCICLETA e se surpreendeu com a forma como as paisagens tornaram-se parte da história. “Conversei com Walter Salles, que eu conheço e respeito bastante, e ele se empolgou falando do quanto Eric era bom, um verdadeiro artista. Ouvir isso de Walter foi realmente importante.” Gautier precisou filmar não apenas icônicas paisagens americanas, mas também pulsante ação externa, especialmente em cenas de água corrente. Quando questionado sobre como as imagens tornaram-se tão naturais, Penn é sucinto: “Entrando na água. Não tratamos apenas de ir às locações reais, mas de colocar a câmera onde quer que fosse, custasse o que custasse.”

Outro importante passo foi escolher a contemplativa trilha sonora de NA NATUREZA SELVAGEM, que traz canções originais de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, junto a composições com Michael Brook e Kaki King. Vedder explica que, enquanto criava as músicas, seu irmão mais novo, também chamado Chris, viajou para a África do Sul para meditar e, por um tempo, perdeu contato com a família. “Ficamos sem saber dele por uns dois meses e, de repente, eu me senti como Carine. Havia coisas acontecendo na vida real semelhantes às da história”, diz Vedder. Talvez por isso ele tenha captado tão bem o espírito do filme e de seus personagens. O cantor avalia que tudo fluiu de forma perfeita: “Havia algo no ar, não dava para negar que alguma coisa estava acontecendo. Foi tão fácil compor e a música tomou forma de maneira curiosa, com batidas casando com a porta de um carro batendo ou um som de órgão mesclando-se com a maneira como os ombros de Emile mexiam para cima e para baixo”, revela.

Para o diretor Sean Penn, não foi apenas a trilha que se encaixou com perfeição, mas também tudo que ele havia criado em sua mente depois de ler o livro de Jon Krakauer: “O filme ficou praticamente como eu o tinha imaginado dez anos antes.”

Leia a crítica do filme aqui!

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Comments

  • É realmente fantástico como o ator/diretor Sean Penn, consegue captar na íntegra toda , essência dos personagens reais, para a telona do cinema, feito com total maestria, de fazer inveja a grandes diretores veteranos. Muito bonito, o filme, chega a ser poético e encantador, vale a pena ver e rever.

    FRANKMON SILVEIRA TELES 19 de agosto de 2008 3:42 Responder
  • A obra e o filme trata-se de um idealista que tinha a força e firmeza necessária para desenvolver e manter seus princípios, pelos quais acreditava firmemente serem necessários para a verdadeira vida. Antes de tudo um exemplo notável da sólida capacidade de raciocínio, em elevado nível, ao qual pode chegar um ser humano de nobres virtudes e valores

    Cândido 18 de junho de 2008 11:55 Responder
  • Fiquei curioso pelo filme desde o primeiro trailer que foi divulgado. Mesmo sem ter visto, torço muito por ele na temporada de premiações. Pena que ainda não conferi a obra original.

    Vinícius P. 17 de janeiro de 2008 5:55 Responder
  • O grande segredo desse filme, acredito, ser a paixão do Sean Penn pela obra que o originou. Quem assistiu ao filme percebe o respeito que o diretor teve com a obra.

    “Na Natureza Selvagem” é um desses filmes que eu espero que estréie logo por aqui.

    Kamila 16 de janeiro de 2008 18:32 Responder

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