Notas de uma Soberana

“Sou chamada de Rainha Virgem.
Solteira, não tenho um Mestre.
Sem filhos, sou a mãe de meu povo.
Deus dê-me forças para carregar esse grande fardo.”
Rainha Elizabeth I
Lançado em 1998, o ousado ELIZABETH foi indicado a sete Oscars (incluindo Melhor Filme e Atriz para Cate Blanchett, e vencendo a categoria de Maquiagem), 11 BAFTAs (vencendo seis deles) e três Globos de Ouro (com Blanchett levando uma estatueta). O segredo parecia ser a forma do filme em exibir um grande épico histórico de maneira contemporânea – abordagem que o fez acessível a um público moderno – e também a direção de Shekhar Kapur, que reinventou um período através de um novo olhar. Durante a produção de ELIZABETH, a equipe discutiu a idéia de contar a história de Elizabeth I – desde a jovem menina até a rainha que reinou por quase 45 anos – em uma trilogia. “O reinado inteiro de Elizabeth não podia ser bem contado em apenas um filme. Ele foi muito longo e muita coisa aconteceu durante o seu período, tendo a rainha conhecido pessoas extraordinárias”, explica o diretor.

Encorajadas pelo sucesso mundial do filme, as discussões continuaram e, aproximadamente cinco anos depois, a equipe sentiu que estava na hora de chamar Michael Hirst (THE TUDORS) para trabalhar no roteiro de ELIZABETH – A ERA DE OURO.

Em ELIZABETH, a história focou os primeiros (e um tanto incertos) anos do reinado da iniciante soberana, em que ela luta para manter o trono, sem saber em quem confiar. Já A ERA DE OURO tem início uma década depois do período abordado no primeiro filme e examina os gloriosos anos intermediários do reinado. Sob um ponto de vista político, o filme fala do conflito de Elizabeth I com o rei da Espanha Filipe II, que, como soberano de seu próprio império católico e contando com a força da Inquisição, era visto como o homem mais poderoso daquela época. Devoto religioso, ele jurara tornar o mundo católico, a qualquer custo. “A ERA DE OURO aborda o conflito entre o fundamentalismo e a tolerância, a busca pelo próprio ser, a divindade. Fala de mortalidade e imortalidade. São todas as coisas com que lidamos no dia-a-dia de nossas vidas”, avalia o diretor.

Mas o filme vai além de assuntos políticos e enxerga Elizabeth como mulher, alguém intimamente em conflito devido, em grande parte, a um dos maiores envolvimentos românticos de sua vida, com o vistoso aventureiro e soldado sir Walter Raleigh. Para dar continuidade a personagem, era essencial trazer novamente Cate Blanchett. Mas, interessantemente, Blanchett não ficou imediatamente atraída pela idéia de voltar ao papel. Kapur e Rush tentaram convencê-la durante um jantar, e foi apenas depois desta conversa que ela concordou em interpretar a rainha novamente. A atriz explica: “O que me ajudou foi fazer o papel de Hedda Gabler em uma produção em Sydney e 18 meses depois em Nova York. Eu senti que, ao refazer um personagem, é possível se aprofundar mais nele”. Blanchett prossegue: “Elizabeth continua fascinando as pessoas, e por isso tantas versões de sua vida foram contadas. O que é revelado sobre ela depende de para onde os holofotes apontam.” Kapur revela que “Para Cate, esse papel é mais desafiador, pois Elizabeth está bem mais complexa. Cate mantém a vulnerabilidade que expressou em ELIZABETH, mas agora esse sentimento se esconde atrás de uma mulher muito mais forte.”

Geoffrey Rush delineou em ELIZABETH um retrato memorável do conselheiro Walsingham e reassumiu o papel antes mesmo da aceitação de Blanchett. O ator mostrou-se ávido em mergulhar novamente nas profundezas desse poderoso homem, que criou a forte idéia de que a soberana era divina. “Walsingham foi o grande mestre da espionagem”, comenta Rush. “Ele trilhou o seu caminho até um posto poderoso no reino de Elizabeth I e, em 1580, articulava uma das maiores redes de espionagem da Europa”. A jornada de Walsingham nesse filme é tocante. Ele não está mais em seu auge. E Geoffrey leva uma seriedade à caracterização que é impressionante de se ver.

Nesse capítulo, surge no reino o ousado explorador sir Walter Raleigh – figura pitoresca que conjura quase tantos mitos quanto Elizabeth I. A equipe do filme queria um ator com habilidades e atributos físicos que dessem vida ao herói, e Clive Owen possuía essas características. “Raleigh tinha algo de inovador, uma liberdade, uma energia. Ele era uma mistura complicada – atraente e muito bem-educado, mas também franco e incrivelmente arrogante,” afirma o ator. Cate acrescenta: “Acho possível se apaixonar por alguém que você quer imitar e, de alguma forma, estar com essa pessoa é viver através dela, morar em seu interior e ver o mundo por seus olhos – vivendo outra vida, sendo alguém diferente.”

A terceira ponta do triângulo, a jovem e bela dama de companhia da rainha, Elizabeth “Bess” Throckmorton, também era um papel essencial. O diretor explica: “Queríamos alguém que passasse jovialidade e energia, alguém que Elizabeth pudesse ver como uma versão mais jovem dela mesma. Procurávamos uma atriz não muito conhecida, mas que tivesse habilidade e carisma suficientes para não ser ofuscada ao contracenar com Cate.” Por preencher esse critério, Abbie Cornish foi a escolhida. “Há algo de intrigante em Bess, ela traz tanto luz quanto escuridão”, afirma a atriz.

Do outro lado do mar, surgem outras preocupações para a rainha protestante, na forma do soberano católico Filipe II, da Espanha. O papel do rei foi preenchido pelo astro espanhol Jordi Molla, que surpreendeu e agradou com sua inesperada interpretação. Samantha Morton representa a lendária e controversa Mary, rainha da Escócia. A atriz observa: “Achei Mary um personagem fascinante. Considerei a abordagem dada a ela muito empolgante, inovadora e ousada – não com a intenção de criar polêmica, mas sim para captar a sua essência. Shekhar vê cada personagem de forma original.”

A figurinista Alexandra Byrne (O FANTASMA DA ÓPERA) foi chamada para vestir esse elenco e ela, mais uma vez, criou um guarda-roupas espetacular para Elizabeth. A inspiração de Byrne para desenvolver trajes que pudessem ser melhor compreendidos atualmente veio do trabalho do estilista espanhol Balenciaga, que interpretara diversas pinturas históricas em suas coleções dos anos 50, incluindo algumas peças elisabetanas. “Elizabeth era um ícone em sua época, e eu senti que essa era a forma de torná-la mais relevante para o público atual’, conta a figurinista. Talvez uma das aparições públicas mais importantes da líder tenha sido para suas tropas antes da batalha com a Armada Espanhola. Atriz, diretor e figurinista estavam completamente de acordo que o traje devia refletir a vontade da rainha em ser vista como um dos soldados, alguém disposto a ajudar, lutar e morrer ao lado deles.

O visual resultante foi de uma valente soldada, vestida com uma armadura quase medieval, cabelos vermelhos soltos, montada em um cavalo branco. “Se a rainha usava uma armadura assim não sabemos, mas, em termos de contar a história, foi um momento-chave”, diz Kapur. “Com o sol brilhando em sua polida armadura, ela deve ter aparentado ser mais anjo que humana, e cada homem e menino presente deve ter torcido para que ela mostrasse ser o anjo da vitória”, acrescenta o pesquisador de história Justin Pollard. O visual de Bess também era importante para o diretor, já que, como ele mesmo explica, “Bess é o lado mortal de Elizabeth. A questão era o que ela usaria em oposição a sua outra metade. São atrizes diferentes que, ainda assim, às vezes precisavam se refletir. E, entre as duas, havia Raleigh.”

O cabelo e maquiagem dos personagens ficou a cargo da vencedora do Oscar e do BAFTA pelo trabalho em ELIZABETH Jenny Shircore. “A visão que Shekhar tinha de Elizabeth I era de uma criatura iluminada, tanto em ELIZABETH quanto A ERA DE OURO, foi o que buscamos alcançar”, revela Shircore. “Além disso, sempre trabalhamos com uma noção de uma mulher muito poderosa, que manejava uma imagem bastante controlada e construída.”

Para recriar a resplandecente corte de Elizabeth I, o desenhista de produção Guy Hendrix Dyas (OS IRMÃOS GRIMM) foi convidado a fazer parte da equipe. “A grande diferença entre os dois filmes, em termos de produção, é a escala da rainha em relação a seu ambiente”, explica Dyas. “Em ELIZABETH, ela aparenta estar menor pela arquitetura em torno dela. Isso realmente ajuda a passar a idéia de isolamento, de uma jovem mulher perdida na política da época. Em A ERA DE OURO, ela está no comando de seu mundo e, por essa razão, precisava aparecer metaforicamente maior que a arquitetura.”

Para o diretor Shekhar Kapur, a decisão de voltar a tratar de uma das maiores soberanas já vistas foi fácil de se tomar. Para ele, a história mostrou Elizabeth I como uma estrategista ardilosa, governante intelectual e líder nata. Mas o que continua a interessar mais o diretor é a mulher solitária que suportou tudo. A rainha tinha que responder a algo maior que ela: “Mesmo com toda a vontade que nós, humanos, pensamos ter, estamos sujeitos a forças maiores do Destino. Foi esse pensamento que governou a forma não só de como eu abordei ELIZABETH – A ERA DE OURO , mas também de como o filmei”.

Cortesia da Universal Studios

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Comments

  • Marfil, eu fiquei surpresa quando soube que a Cate Blanchett tinha aceitado fazer essa continuação, mas entendi a decisão dela quando vi, numa entrevista, ela dizer que a história aprofundava a personagem, mostrava esse outro lado de Elizabeth e ela queria explorar isso.

    Como gosto muito do primeiro filme, devo conferir a continuação.

    Kamila 18 de dezembro de 2007 22:39 Responder
  • ah!… repetições, repetições, mais um diretor de um filme só.
    abraços

    Felipe Nobrega 18 de dezembro de 2007 19:13 Responder

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