Audrey celebrizou a Tiffany em “Bonequinha de Luxo”

Garrafas de Cinzano desfilaram pelas mesas de LADRÃO DE CASACA, de Alfred Hitchcock, na francesa Côte D’Azur, onde também não faltavam maços de cigarros de marcas globais, num tempo em que fumar era “in”. Ingrid Bergman teve o rosto emoldurado, no célebre CASABLANCA, de Michael Curtiz, por famosas marcas de uísques…

Mas nenhum filme para ficar no terreno dos clássicos, foi tão direto no merchandising como BREAKFAST AT TIFFANY´S, de Blake Edwards, que no Brasil chamou-se BONEQUINHA DE LUXO. A bela Audrey Hepburn não só olha com cobiça para a famosa loja, como diz: “É tudo o que se pode desejar”. De quebra, dá um empurrão na grife de moda feminina Givenchy…Em gratidão, a joalheria e a grife associam até hoje suas imagens à de Audrey (1929-1993).

Mais que em MY FAIR LADY, Holly Golightly se tornaria a marca registrada de Audrey Hepburn. Sua cena de abertura, usando um Givenchy pretinho e uma tiara, bebericando um café e mordiscando um doce, olhando por cima dos óculos escuros para uma vitrine da joalheria Tiffany, às cinco da manhã, se tornaria uma imagem tão antológica quanto a saia esvoaçante de Marily Monroe em O PECADO MORA AO LADO, ou John Wayne em pé diante da porta fechada, no final de RASTROS DE ÓDIO. Porém, quando Truman Capote escreveu a novela em 1958, Hepburn era a última pessoa que ele tinha em mente.

Sua anti-heróina se chamava Connie Gustafson, antes de decidir um nome mais significativo. Holly Golightly, uma mulher para quem a vida é um eterno feriado, mas que vai com calma mesmo assim. Depois de publicada, dúzias de mulheres afirmaram ter sido a inspiração para a personagem: uma novaiorquina chegou até a processá-lo (e perdeu) por calúnia. Na verdade, a musa de Capote foi Marilyn Monroe, uma de suas pessoas preferidas. Quando vendeu os direitos à Paramount, ele fez um forte lobby para que ela estrelasse o filme, mas Monroe era contratada da Fox, que dificilmente a cederia por um preço razoável. Além disso, A Paramount ainda tinha um contrato com Audrey Hepburn para mais 3 filmes…

Embora Capote fosse amigo de Hepburn, ele acreditava que ela não poderia ser Holly Golightlyn de jeito nenhum. A própria Audrey concordava. Se holly não era uma prostituta, era com certeza uma garota de programa e portanto o papel não era adequado para sua imagem, especialmente sendo mãe recente (ela tivera o primeiro filho apenas 3 meses antes do início das filmagens). Desconhecido o trabalho do primeiro diretor escolhido, John Frankenheimer, ela rejeitou o papel. O estúdio insistiu, substituindo por Blake Edwards, que garantiu a ela que a ambiciosa imoralidade de Holly seria retratada com bom gosto.

Uma Verdadeira Farsa

Convencida por seu agente de que Holly era mais uma desmiolada que uma prostituta. Hepburn finalmente aceitou, ainda achando que era um tremendo erro de escolha – “Holly é totalmente o oposto de mim. Ela me assusta. É um papel para alguém extrovertida. Eu sou tímida.” Para superar as preocupações de que o papel podia ser rejeitado, ela copiou um pouco a interpretação da atriz inglesa Kay Kendall.

Por algum tempo, as duas estiveram no palco londrino em High Button Shoes, onde Hepburn rapidamente percebeu que “Kay era meio louca, mas ainda assim era absolutamente impossível não gostar dela.”

Como prometido, muitas arestas foram aparadas no roteiro de George Axelrod, definido por Blake eDwards como uma comédia romántica. A bissexualidade de Holly foi totalmente omitida, mas a prostituição foi citada quando ela pede “$50 para ir ao toalete”. “É claro que deixamos a ambiguidade sexual no roteiro”, Hepburn disse ao NY Times, “Muitas pessoas acham Holly uma vadia quando de fato ela só está fazendo um jogo de cena, pois ela é muito jovem.”

A maior objeção de Capote foi um final feliz – sua Holly nunca sossegaria, estaria sempre circulando, trocando a felicidade verdadeira por outras possibilidades imaginárias. Contudo, apesar das mudanças, o roteiro conservou muito mais cínismo e imoralidade do que a crítica contemporânea permitia. Afinal de contas, tratava-se do romance de uma garota de programa com um gigolô.

Nossa Amiga Huckleberry

Além de exigir Givenchy, Hepburn também insistiu em seu câmera favorito, Frans Planer. A Paramount concordou prontamente e reuniu um elenco coadjuvante bem forte: o então ascendente ator George Peppard, Patricia Neal, Buddy Ebsen, o autor Jose-Luis de Vilallonga, Martin Balsam e, o elemento mais datado do filme, Mickey Rooney como o grotesco e caricatural fotógrafo japonês, Mr Yunioshi.

As filmagens começaram em outubro de 1960, com 8 dias de locação em Nova York. A sequencia de abertura foi particularmente extenuante para a tímida Hepburn. Embora filmada de manhã bem cedo, por questão da segurança do premiê russo Nikita Khrushchev, em visita à cidade, centenas de curiosos encheram as ruas, fazendo-a errar inúmeras vezes a cena. Para aumentar seu incômodo, ela tinha aversão aos doces determiandos pelo roteiro e implorou inutilmente a Edwards, para trocar por sorvete.

As cenas no interior da Tiffany foram mais fáceis. Abrindo num domingo pela primeira vez desde o século 19, para atender a equipe, a joalheria foi a única locação obrigatoriamente fechada em Nova York – cerca de 40 soldados e vendedores ficaram de olho nos milhões de dólares em jóias. A reputação da loja ficou tão umbilicalmente ligada ao filme e a Audrey, que quando ela morreu, dedicaram um anúncio à “nossa amiga Huckleberry”.

“Moon River”

Mas o verdadeiro passo para a imortalidade foi a inesquecível interpretação de “Moon River”. No romance, Holly canta uma música totalmente diferente – mas para o filme, Henry Mancini e Johnny Mercer adaptaram sua composição original especialmente para a voz limitada da atriz (foi cantada em uma única oitava).

“Os enormes olhos de Audrey deram-me o incentivo para ser um pouco mais sentimental do que o normal”, explicou Mancini. “Aqueles olhos podiam sustentar a canção. Moon River foi escrita para ela. Ninguém mais tinha compreendido tão completamente a música. Devem existir mais de mil versões de Moon River, mas a dela é sem dúvida a melhor.”

Ao contrário de MY FAIR LADY, Hepburn cantou e até aprendeu a dedilhar as cordas do violão. A canção chegou a ganhar o Oscar – um dos dois que Mancini ganharia com o filme – e tornou-se uma das mais populares de todos os tempos, sendo gravada mais de 500 vezes.

Estreando em 5 de Outubro de 1961, com críticas favoráveis – na maioria com louvores à interpretação de Audrey – o filme confirmou-se um sólido sucesso nos EUA e no mundo. Além dos dois Oscars de Mancini, foi indicado para melhor Atriz, Roteiro Adaptado e Direção de Arte (pelos inusitados cenários interiores de Richard Anderson – Os apartamentos de Holly e Paul foram propositalmente desenhados como monumentos ao mau gosto). Embora tenha perdido o Oscar para Sophia Loren em DUAS MULHERES, a própria Audrey ficou contente com o resultado final declarando “Foi a melhor coisa que já fiz, porque foi a mais difícil”

Aproximadamente meio século depois, público e crítica ainda concordam com seu veredito.

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Comments

  • Esse artigo está ótimo! A Audrey é foi uma das maiores atrizes americanas que o cinema já viu. Meu filme preferido dela é mesmo “Bonequinha de Luxo” – e achei sua escolha perfeita para o papel, apesar dos detalhes discutidos. Também gosto muito de “My Fair Lady”, mas não chega ao nível do longa do Blake Edwards. O clima do filme é bem agradável mesmo, tanto que muitos devem ter percebido que a história era muito ousada para a época.

    Vinícius P. 17 de dezembro de 2007 17:44 Responder
  • Marfil, que texto maravilhoso. “Breakfast at Tiffany’s” é uma daquelas obras permanentes. Acho que a Tiffany’s celebra o sonho de Holly Golightly, garota de cidade pequena e que queria ser do mundo todo.

    O engraçado é que, mesmo com todo o receio da Audrey, este foi o papel que a eternizou como ícone fashion e como mulher mesmo.

    E o filme é cheio de momentos inesquecíveis, desde a cena de abertura, até a Audrey cantando “Moon River”, passando pela linda cena final.

    Parabéns, de novo!

    Kamila 14 de dezembro de 2007 11:08 Responder
  • Mais um clássico que preciso assistir.
    Audrey é figura imortal do cinema e a canção é das mais belas de todos os tempos.

    Gustavo H.R. 13 de dezembro de 2007 0:19 Responder

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